O declínio de Tirana


Dos 50 países da Europa, a Albânia é um dos mais pobres. Ainda que tenha um indíce de desenvolvimento humano considerado alto, dentro da Europa está acima apenas da Moldávia. O PIB também é baixo, estando acima de menos de uma dezena de países do continente europeu. E é claro, que esse desenvolvimento socioeconômico se reflete também no futebol. A seleção albanesa, por exemplo, desde sua primeira partida, em 1946, disputou apenas uma grande competição, a Euro de 2016, a primeira desde o inchaço no número de participantes de 16 para 24. No âmbito dos clubes a situação também não é das melhores em torneios internacionais. Nesta temporada, 2017-18, haverá a primeira participação de um clube albanês na fase de grupos de uma das grandes competições europeias. O Skenderbeu Korçe, potência recente do futebol local, estará no grupo B da Liga Europa.

Fundada em 1930, a Liga da Albânia tem em sua história apenas nove campeões nacionais, e é um campeonato bastante centralizado em torno da capital do país, a cidade de Tirana. São 57 títulos divididos entre as três potências históricas: 24 para o KF Tirana, 18 para o Dínamo e 15 para o Partizani, que vive um jejum de 24 anos sem levantar o troféu. Do interior, o time mais bem sucedido era o Vllaznia, da cidade de Shköder, com nove títulos nacionais. Essa configuração de forças reinou no futebol da Albânia até meados de 2009, quando a cidade de Korçe, 5ª maior do país, decidiu que era hora de seu representante, o Skenderbeu, se tornaria uma equipe de ponta. Naquele momento, ninguém poderia imaginar que o futebol albanês fosse literalmente virado de cabeça pra baixo. O KF tirana havia acabado de ser campeão pela 24ª vez e o Dínamo conquistaria na temporada 2009-10 seu 18º troféu. O Skenderbeu, primeira equipe do interior a ser campeã nacional, em 1933, lutava contra o rebaixamento. Foi então que entrararam em cena os principais nomes da alta sociedade de Körce. O CEO da Red Bull na Albânia, Agim Zeqo, assumiu a presidência do clube e contou com o apoio financeiro de gente muito importante, como o Ministro das Finanças da Albânia, Ridvan Bode e o prefeito da cidade de Korçe, Niko Peleshi. Ao fim daquela temporada, o Skenderbeu se manteve na elite ao vencer a equipe do Kamza, nos playoffs de descenso.

O Skenderbeu alterou o eixo do futebol albanês
Para a temporada 2010-11, a equipe buscou contratar diversos jogadores da seleção nacional e já iniciou a competição como um dos favoritos. Depois de uma disputa intensa com o Flamurtari Vlorë, a equipe engatou uma sequência positiva de resultados e conquistou seu segundo título na história da competição, 78 anos após o primeiro. Os investimentos não pararam por aí e o clube passou a dominar o cenário local conquistando os próximos quatro títulos, chegando a um pentacampeonato nacional inédito, e ainda faturando duas Copas da Albânia. Muito dinheiro e planejamento! O segredo ideal para uma equipe campeã, certo? Com certeza, mas há quem diga que o Skenderbeu , desde sua primeira conquista, sempre teve "algo a mais" por trás. Boatos à parte, na última temporada, a UEFA puniu o Skenderbeu com o banimento por um ano em competições europeias por suposta manipulação de resultados em jogos da liga nacional e também em competições continentais. A suspeita se iniciou em alguns jogos amistosos do Skenderbeu contra times holandeses, e a sentença praticamente confirmou o que muitos já tinham certeza.

Mas e quanto aos times de Tirana? Só isso foi suficiente para deixar o trio de ferro da capital fora de combate? Bem, o Partizani já não vivia seus anos de glória há bastante tempo. Depois do título na temporada 92-93, o clube, fundado em 1946 junto da proclamação da república socialista, caiu em profunda crise financeira e o primeiro rebaixamento da história consequentemente aconteceu na temporada 99-00. O clube voltou logo em seguida à elite. Em 2010, o clube foi rebaixado novamente, e na temporada seguinte (2010-11) caiu para a terceira divisão, chegando ao pior momento de sua história. Em 2013, o clube teve metade de suas ações compradas por Gazment Demi, um rico empresário local. Com esse aporte financeiro, o Partizani saiu do fundo do poço e retornou à primeira divisão.

Dono de uma das torcida mais fanáticas da Albânia, o Partizani vive um jejum de 24 anos sem ser campeão albanês
Já o Dínamo, foi a equipe que teve a queda mais surpreendente e duradoura. Fundado em 1950 e com íntima ligação histórica ao regime comunista de Enver Hoxha, o clube sempre foi um dos mais bem sucedidos do país. E mesmo na era pós-comunismo teve bons anos, conquistando três troféus na década de 2000. O último na temporada 2009-10. Porém, na temporada 2011-12, o Dínamo entrou em sua pior fase da história e terminou a competição na última colocação, com apenas três pontos. Mesmo presidido por Samir Mane, dono da Balfin Group, um dos maiores grupos de investimentos privados do leste europeu, o Dínamo vive uma rotina de time inferior. Desde que caiu, jamais voltou, e vive um intenso flerte com o rebaixamento para a terceira divisão. Na última temporada, ficou apenas dois pontos acima dos playoffs.

Por último, o Tirana, time mais bem sucedido do país. Em 2011, o clube deixou de ser propriedade da cidade de Tirana para se transformar em empresa de capita aberto. Sob a presidência de Refik Halili, dono de grandes indústria na Albânia e que patrocina a equipe desde 2003, o clube conseguiu lutar pelo título apenas na temporada 2015-16, e na temporada 2016-17, caiu de desempenho vertiginosamente e foi rebaixado pela primeira vez na história, fechando a trinca de clubes de Tirana que jamais haviam caído. Em compensação, levantou o troféu da Copa da Albânia e retornou às competições europeias.

Registro de um dos últimos títulos nacionais do Tirana, clube mais tradicional do país
Dessa forma, a nova temporada no futebol albanês traz a expectativa do retorno do clássico entre Dínamo e Tirana, dessa vez, na segunda divisão. O futuro dos times da capital poderia ser mais sombrio, se não fosse o Partizani. Como dito anteriormente, o clube possui dinheiro para bater de frente com o Skenderbeu, e com a nova força do interior: o Kukesi. O clube, da cidade de Kükes, apesar de fundado em 1930, passou a crescer de 2010 para cá. Fatos Hoxha, membro do Partido Democrático da Albânia e um dos principais representantes da cidade no Parlamento, assumiu a equipe e passou a investir pesado, inclusive, contratando muitos brasileiros. O investimento deu resultado e o clube saiu da terceira divisão para a elite em dois anos e logo passou a ser uma das principais forças do torneio. Depois de bater na trave por anos seguidos, o Kukesi venceu a Copa da Albânia na temporada 2015-2016 e no último Campeonato Albanês superou justamente o Partizani na tabela para faturar o título inédito.

A tendência para o futuro é de renascimento para o futebol de Tirana, ao menos por conta do Partizani, afinal, Tirana e Dínamo vivem sob uma incógnita, e Skenderbeu e Kukesi seguem como grandes favoritos ao título, ainda que o atual campeão tenha perdido o poder de fogo do croata Pero Pejic, um dos principais jogadores do campeonato albanês nos últimos anos.

Equipe do Kukesi campeão albanesa contou com o brasileiro Jean Carioca (penúltimo abaixado da esquerda pra direita).

Nenhum comentário

Deixe seu comentário:

Tecnologia do Blogger.