Cristiano Ronaldo mereceu ser eleito o melhor do mundo?


Se você frequenta grupos e fóruns de discussão sobre futebol, já deve ter visto essa pergunta. Afinal, Cristiano Ronaldo merece ser o melhor do jogador do planeta em 2016? Ao mesmo tempo que o português carrega consigo uma legião de fãs, há também a corrente contrária. E não é surpreendente quando, na escolha dos "especialistas de Facebook", o resultado vencedor seja o de que CR7 não mereça o título de "o jogador do ano". O mesmo em relação a jornalistas. Muitos tem uma preferência declarada a um ou outro jogador. E isso, óbvio, influencia também em suas opiniões. É natural. Mas será que Cristiano Ronaldo dos Santos Aveiro não merece mesmo ser chamado como o Melhor Jogador do Mundo?

Títulos

Em anos sem a disputa de Copa do Mundo, os torneios continentais se tornam os mais relevantes, tanto por clubes como por seleções. Um pouco impensável vencer os dois torneios em um mesmo ano, não? Mas foi o que conseguiu Cristiano Ronaldo e o zagueiro luso-brasileiro Pepe, ambos com grande destaque durante os dois torneios, a Liga dos Campeões e a Eurocopa. Na Liga dos Campeões, Ronaldo teve o segundo melhor desempenho artilheiro da história e decidiu com um hat-trick no momento mais crítico da campanha, quando precisava reverter uma derrota por 2 a 0 no jogo de ida das quartas-de-final diante do Wolfsburg, da Alemanha. Na Eurocopa, salvou a pele de Portugal contra a Hungria, passando de fase aos trancos e barrancos, participou do gol que eliminou a Croácia, e subiu no décimo andar para eliminar Gales na semifinal. Sem contar o show midiático na decisão. Além disso, marcou três gols na final do Mundial de Clubes da FIFA e (com nenhuma relevância prática, diga-se), viu da TV seus companheiros levantarem a taça da Supercopa da Europa. Me parece um ano incrível.

Algum jogador equilibrou uma taça dessas na cabeça em 2016? Coisa para poucos...
Gols, assistências e números

Foram 55 gols e 17 assistências em 57 jogos em 2016. Dos outros dois concorrentes principais aos prêmios individuais, Messi e Griezmann, o português é derrotado pelo argentino, que atingiu a incrível marca de 62 gols e 31 assistências em 59 jogos no ano. Essa briga pelos números vem desde que os dois passaram a dominar o planeta bola. O ano que passou, foi o sexto ano seguido em que Ronaldo ultrapassou a marca de 50 gols. Foi também a sexta temporada consecutiva a atingir os 50 gols. Feito inédito na história do futebol.

Além disso, muitos dizem que Ronaldo esteve abaixo em 2016, não foi brilhante e que teve pouca participação nos jogos, restando-lhe apenas o ato de "decidir" (como se fosse o mais fácil, não?). O que não parece ser verdade se analisarmos os números da Champions League, por exemplo. Mesmo sendo um jogador de frente, e que cai muito pelos flancos, Ronaldo executou 200 passes com 87% de precisão na temporada passada contando apenas a fase inicial, disputada em 2016. Lionel Messi, peça central por onde passa todo o jogo do Barcelona, realizou 259 passes com 82% de aproveitamento. Números muito similares para jogadores com tantas diferenças, inclusive de posicionamento. E isso, mesmo jogando em um nível inferior ao que atuou na fase final da Liga válida pela temporada passada, no primeiro semestre do ano. A tábua de artilharia evidencia isso (em que Messi já aparece com 10 gols e 2 assistências e Ronaldo com dois gols e quatro assistências).

Há muitos outros números a serem analisados, mas não vou me alongar neles. Aqui não há discussão, pois é uma análise de maneira objetiva e quantitativa. Na maioria dos critérios utilizados, é Lionel Messi quem aparece à frente. Mesmo que Ronaldo tenha tido um excelente desempenho. 

Atuações

Um dos argumentos dos detratores é de que, jogo a jogo, outros atletas fizeram uma temporada melhor que a de Cristiano Ronaldo. Primeiramente, acredito ser improvável que quem diz isso tenha visto todos os jogos da temporada dos principais atletas postulantes ao prêmio. Afinal, se o prêmio fosse dado por desempenho jogo a jogo, ele deveria ter critério parecido ao da Bola de Prata, por exemplo, com notas jogo a jogo. Além disso, outros atletas, diferentes dos mesmos de sempre, poderiam estar entre os melhores. Afinal, dá pra dizer que o Mahrez jogou muito menos que Ronaldo, Messi e Griezmann? E Suárez? Bale? Kroos? Se o critério fosse jogo a jogo, até mesmo Ibrahimovic poderia ter chances de estar entre os melhores. 

Veja bem, não estou em momento nenhum descaracterizando o desempenho nos jogos como um critério de escolha. É óbvio que esse é um critério relevante, e talvez seja o mais importante de todos. Mas o malabarismo criado para que as atuações de Ronaldo sejam consideradas ruins contradizem os feitos e números da temporada. Além disso, o histórico de prêmios como a Bola de Ouro, mostra que o prêmio de Melhor do Mundo, da Europa ou da temporada, aponta muito mais para outra questão prática: quem, afinal, foi o jogador mais RELEVANTE do ano. Em um mundo com atletas de tão alto nível, é muita pretensão escolher um único jogador apenas através de análise técnica. Afinal, quem somos nós para isso? Fosse assim, apenas um colegiado muito selecionado poderia tomar tal decisão. Não que os colegiados já não sejam restritos. Eles são. Aí partem para outro princípio. O de desqualificar esses colegiados. Como veremos mais à frente, o reconhecimento ao ano de Ronaldo vem de diversas frentes. 

Escolhemos então, cinco jogos em que ele se destacou. Não escolhi necessariamente suas melhores atuações, mas sim, partidas importantes em que Ronaldo deixou sua marca de forma espetacular, mesmo que o desempenho minuto a minuto tenha sido abaixo que o de outros companheiros, por exemplo.

El Clásico

Tem jogo melhor para aparecer do que um clássico? O Barcelona estava na liderança, com 39 jogos de invencibilidade e uma vitória blaugrana sacramentaria o título de maneira precoce. O Real Madrid vinha em crescente desempenho. A partida foi muito equilibrada e caminhava para um empate e 1 a 1, bastante favorável ao Barcelona, ainda que este jogasse em casa. Cristiano deu 34 toques na bola durante os 90 minutos, deu cinco chutes, sendo apenas dois deles na direção do gol.  Até que aos 40 minutos da segunda etapa, Bale cruza no segundo pau, Ronaldo mata a bola no peito e chuta por baixo das pernas de Claudio Bravo, acalmando os ânimos do Camp Nou.


Remontada contra o Wolfsburg


Antes de a bola rolar, Ronaldo afirmou que o jogo contra o Wolfsburg seria uma noite mágica. CR7 tirou três coelhos da cartola e manteve o Real Madrid vivo na Liga dos Campeões após uma dura derrota na ida por 2 a 0. O vídeo abaixo fala por si, mas Ronaldo deu 51 toques na bola, dois a menos que Gareth Bale, tendo ativa participação em todo o setor ofensivo do campo, ainda que naturalmente tenha jogado por maior tempo no lado esquerdo.




O difícil duelo com a Hungria

Dois jogos péssimos, individualmente e coletivamente. Esse foi o início da campanha de Portugal na Eurocopa frente a adversários teoricamente mais frágeis como Áustria e Islândia. Visivelmente irritado em campo (e fora dele), Ronaldo precisava dar uma resposta. Aliás, pelo nível coletivo, era preciso mesmo aparecer. E mesmo após falhas de Rui Patrício, Ronaldo e seus companheiros correram atrás do prejuízo. O camisa 7 marcou dois golaços e garantiu o empate em 3 a 3 que deu um alívio aos tugas. Como Ronaldo mesmo dizia, não é como começa, mas sim, como termina.



Dérbi de Madri

O ano não foi mesmo fácil aos detratores do gajo. Cristiano vinha de alguns jogos ruins, como nos dois duelos com o modesto Légia Varsóvia. As críticas da imprensa aumentavam, mesmo com alguns gols no Campeonato Espanhol. Mas Ronaldo mais uma vez respondeu do jeito que sabe. Em uma atuação espetacular de todo o time do Real Madrid, Cristiano balançou a rede três vezes na casa do adversário.


Final do Mundial de Clubes

O Kashima Antlers bem que assustou. Ronaldo bem que deixou alguns eufóricos com seu sumiço. Mas ele resolveu aparecer com outro hat-trick para fechar a temporada da melhor forma possível, com título mundial e mais um prêmio individual na prateleira.


E pra fechar, aqui deixo um bom compilado de lances e gols de Cristiano Ronaldo:


Representatividade

Como dito no item anterior, o prêmio de melhor do mundo vai, invariavelmente, para o jogador de maior relevância no ano. Isso já é uma tradição em prêmios como a Bola de Ouro. Em 82, por exemplo, Paolo Rossi foi escolhido o melhor do ano. No primeiro semestre de 1982, o italiano havia participado de apenas três partidas pela Juventus antes de destruir na Copa do Mundo. Não à toa seu desempenho na primeira fase do Mundial era a de um jogador em pré-temporada. Nada mais natural, porém, que o homem que foi o artilheiro e melhor jogador da Copa, além de ter conquistado o título coletivo, fosse também escolhido o cara do ano.

Você pode fazer diversas questões acerca da temporada de Ronaldo. Mas é difícil contestar sua representatividade. O principal jogador das equipes que venceram duas das principais competições da temporada, artilheiro da Champions com o segundo melhor desempenho da história (atrás apenas de si mesmo), vice-artilheiro do Espanhol, autor de três gols na final do Mundial de Clubes... difícil ter sido mais relevante que isso. Sem contar os recordes e marcas batidos durante o ano. Um ano de sonho. Um ano que pouquíssimos atletas tiveram na história do futebol.

Cristiano Ronaldo observa quem desdenha do ano dele
Reconhecimento

Cristiano Ronaldo recebeu os principais prêmios de 2016. Foi eleito o melhor pela FIFA, entidade máxima do futebol, pela revista France Football, criadora do prêmio mais tradicional da Europa, pela revista Four Four Two, publicação mais importante da Inglaterra ao lado da World Soccer, pela Eurosport, uma das principais redes de televisão da Europa, pela ABC, uma das principais redes de televisão dos EUA (aqui foi eleito como atleta do ano) e até mesmo por uma bizarra premiação do Facebook em parceria com o jornal Marca, com a escolha do público. Bom, reconhecimento de entidades importantes e até dos torcedores, ele tem. Há um respaldo de especialistas, de jornalistas, de jogadores e de milhares de torcedores e fãs de todo o planeta. Cristiano Ronaldo é o melhor até mesmo em uma análise mais "científica". A CIES (em tradução livre, Centro Internacional de Estudos do Esporte) colocou o português na liderança da temporada corrente de um ranking que analisa diversos aspectos técnicos dos jogadores das cinco principais ligas da Europa. CR7 está atualmente na ponta com 94 pontos, apenas um ponto a mais que Lionel Messi, líder da temporada anterior. 

Considerações finais

É óbvio e natural que cada um tenha uma opinião. Cada um tenha uma preferência quanto ao nome que se considera o melhor de todos em uma temporada. E é preciso acima de tudo respeitar essas opiniões. Afinal, não é uma escolha simplesmente objetiva. Como tentei separar aqui em itens, há diversos critérios que podem e devem ser utilizados. Mas desvalorizar o título conquistado por Cristiano Ronaldo simplesmente não faz sentido. Se um jogador que venceu como o português venceu, marcou gols como o português marcou, jogou como jogou o português, foi premiado pelas mais conceituadas publicações e instituições do futebol, não merece ser o melhor... com todo o respeito, mas mais ninguém merece esse título.

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