Há 20 anos, Portuguesa iniciava luta por título brasileiro


Por André Carlos Zorzi

11/12/1996 – 11/12/2016

Há duas décadas a Portuguesa chegava ao maior feito de sua história futebolística em nível nacional: vencia o Grêmio por 2 x 0 no jogo de ida da decisão do Brasileirão de 1996. 

O time que trazia nomes como Rodrigo Fabri, Zé Roberto, Clemer, Alexandre Gallo, Alex Alves e Capitão fez história ao superar o Cruzeiro de Dida e Palhinha e o Atlético-MG de Euller e Taffarel antes de sucumbir ao Grêmio na grande final, quando deixou o título escapar a menos de dez minutos do apito final, perdendo a partida de volta pelo mesmo placar que o jogo em São Paulo.

Para entendermos mais sobre a campanha, é necessário resumir rapidamente como estava o contexto do time quando foi dada a largada no nacional.

A ORIGEM

Após conquistar o pouco relevante Torneio Início do Paulistão e ter sido a única equipe a fazer frente ao Palmeiras dos 102 gols durante o primeiro turno do estadual (conquistando uma hipotética vaga no quadrangular da competição), a equipe relaxou e fez um segundo turno bastante fraco: 11ª colocada, entre 16 times. A campanha na primeira metade havia sido tão boa que, mesmo assim, a equipe terminou em 3º na classificação-geral.

Às vésperas do início do Brasileiro, viu sua defesa ser completamente desfeita, com as saídas dos laterais Cássio e Zé Maria (presença frequente na Seleção Brasileira è época) e do zagueiro Augusto. Para piorar, o atacante Tiba, artilheiro da equipe no Paulista, também deu adeus ao clube. Na primeira partida do campeonato, o outro titular da zaga, Jorginho Baiano, marcou um gol contra. Em seguida, machucou o joelho, numa lesão que o deixaria de fora dos gramados até o ano seguinte.

Para completar, o time passava por uma troca de técnico: saía Valdir Espinosa, indo para o Corinthians, e chegava Candinho, demitido do Santos semanas antes. Tratava-se de um nome conhecido no Canindé, onde havia estado durante o ano anterior, obtendo a melhor campanha da fase inicial do Paulistão. Diante das perdas, a diretoria trouxe diversos nomes, entre eles alguns que cresceriam junto ao time ao longo da campanha: os laterais Valmir e Carlos Roberto, os zagueiros Marcelo e César Augusto, o volante Alexandre Gallo e o atacante Alex Alves.

A CAMPANHA

Ao início do campeonato, quase ninguém apontava a Portuguesa como uma das favoritas entre as 24 equipes que disputavam oito vagas na segunda fase. O início foi bom: 5 vitórias, 1 empate e 3 derrotas em nove jogos. A equipe aproveitou bem as chances que teve no Canindé e ganhou dos dois Atléticos (Mineiro e Paranaense), times que se destacariam na tabela final. A pontuação foi suficiente para que se mantivesse sempre no G-8 até então. 

Na sequência, veio a decadência: 2 empates e 4 derrotas em seis jogos. Como era de se esperar, ventilou-se até mesmo a demissão de Candinho, e, às vésperas de três partidas contra equipes com grande risco de rebaixamento (Criciúma, Fluminense e Bahia), especulou-se até mesmo que, em caso de derrotas, a equipe também entrasse na briga contra a queda.

O que aconteceu foi justamente o contrário: a Lusa aproveitou a fragilidade dos adversários para ganhar confiança, e também bateu o então líder Palmeiras em pleno estádio do Morumbi, e o Guarani, que obteve a segunda melhor campanha da primeira fase, no Brinco de Ouro da Princesa. Cinco jogos e cinco vitórias. Tudo parecia encaminhado. Para garantir a classificação, bastavam três ou quatro pontos nas partidas que restavam: Internacional, Coritiba e Botafogo. Derrota por 2 x 1 para o Inter, de virada. Diante do Coritiba, a maior goleada sofrida àquele ano: 4 x 0. E tudo indicava que a Portuguesa, novamente, morreria na praia.

A CLASSIFICAÇÃO

O time chegou à última rodada da Primeira Fase com 33 pontos, na 11ª colocação. Ainda brigavam pela vaga Sport, Internacional, Goiás e São Paulo. Para que a Lusa avançasse, três deles precisariam tropeçar. Sport e Goiás enfrentavam times já classificados às finais, fora de casa, mas que o folclore da torcida indicava que poderiam “entregar” para prejudicar rivais: Palmeiras e Grêmio, respectivamente. O Inter jogaria contra o já rebaixado Bragantino, fora, e o São Paulo enfrentaria o Paraná, que não almejava mais nada, em Curitiba. 

A Portuguesa, por sua vez, jogaria contra o Botafogo, campeão vigente, mas que estava no meio da tabela, sem pretensões. A partida também seria em Curitiba, por conta de uma perda de mandos de campo: na partida contra o Vitória, na 7ª rodada, o árbitro Leo Feldman relatou agressões na súmula. O caso foi a julgamento semanas depois, e o time jogou contra o Palmeiras no Morumbi, Inter em São Januário e Botafogo no Couto Pereira. No primeiro tempo, o Goiás já abria três gols de vantagem sobre o Grêmio, reduzindo ainda mais as chances da Lusa. Por outro lado, o Palmeiras passeava sobre o Sport, em jogo que terminaria 4 x 1. 

Em Bragança Paulista, o impossível acontecia: gol do Bragantino. Para aumentar o drama, o time paulista teve um expulso, e também deu um pênalti para o Internacional, que foi desperdiçado. Vitória do lanterna. Restava ainda o São Paulo, que passou os últimos minutos de sua partida, empatada em 1 x 1, sabendo que dependia apenas de um gol para avançar de fase. Não conseguiu.

A Lusa, por sua vez, saiu na frente e levou o empate. O susto não durou muito, e logo virou goleada: 4 x 1. O jogo ficou maluco e, aos 38’ do segundo tempo, o Botafogo tinha apenas sete em campo (quatro expulsos). O goleiro Clemer ia para a área, chutar um pênalti que aumentaria ainda mais a vantagem. A penalidade, porém, nunca foi cobrada: o botafoguense Mauricinho se atirou no chão, reclamando de lesão. Com seis em campo, o jogo não pôde prosseguir e o juíz soou o apito final: Lusa nas quartas de final, pegando a oitava e última vaga.

SEGUNDA FASE

Logo de cara, a Portuguesa enfrentaria o Cruzeiro. Apenas em 1996, o time já havia sido campeão do Estadual e da Copa do Brasil, era dono da melhor campanha do Brasileirão e finalista da Supercopa Libertadores, tendo vencido o Colo-Colo do Chile por 4 x 0 fora de casa. No encontro entre os dois na primeira fase, goleada cruzeirense: 4 x 1. Para piorar, por conta da capacidade mínima exigida pelo regulamento, a equipe não poderia jogar no Canindé. Menos de 8 mil pagantes se irritaram com o atraso da partida, por conta de uma falta de energia no Morumbi. Rodrigo abriu o placar ao final do primeiro tempo e Alex Alves, que tinha acabado de entrar, ampliou duas vezes no segundo, aproveitando a expulsão de Célio Lúcio: 3 x 0.

O regulamento previa a “vantagem do empate”, ou de dois resultados pela mesma diferança ao time de melhor campanha. Precisando devolver o placar, mais de 70 mil cruzeirenses foram ao Mineirão e vibraram quando Cleison marcou para os donos da casa aos 39’ do primeiro tempo. A marcação lusitana, porém, foi bastante eficaz e não passou disso. 1 x 0 e Lusa nas semis. Após derrotar o bom time do Cruzeiro, a confiança de torcedores e até mesmo de simpatizantes cresceu bastante contra o Galo. Agora como titular Alex Alves apareceu de novo e garantiu o valioso 1 x 0 rubro-verde no Morumbi. Desta vez o Mineirão estava mais cheio: 81.500 apenas entre os pagantes. O atacante Euller abriu o placar, resultado que dava a vaga na final aos mineiros, e dançou o ‘Vira’ na comemoração. 

O alívio lusitano só veio na etapa complementar: Caio, de pênalti, empatou. Em bom contra-ataque, Alex Alves virou a partida. O time do Atlético passou a pressionar completamente o jogo quando o zagueiro César foi expulso de jogo, e até encontrou outro gol com Euller, aos 36’, mas não passou disso. 2 x 2 e a Lusa na inédita final.

A FINAL

Após muita polêmica por conta da capacidade do Morumbi, que passava por reformas, a Lusa conseguiu mandar o jogo na capital. O adversário seria o Grêmio de Luiz Felipe Scolari, que havia deixado para trás Palmeiras e Goiás. O jogo estava equilibrado até os 38’ do primeiro tempo, quando um lance mudou tudo: falta na entrada da área para a Lusa, e o árbitro Sidrack Marinho expulsou o gremista Marco Antônio. Gallo vai para a cobrança e estufa as redes.

Com vantagem numérica em campo e no placar, o time continua indo para frente e amplia com Rodrigo, aos 15’. Com a vantagem por 2 x 0, a Portuguesa poderia até mesmo perder a volta por um gol de diferença que ainda assim se sagraria campeã. A gordura extra foi por água abaixo logo aos 3’ na partida do Olímpico, após conclusão de Paulo Nunes. O time não se abateu, conseguiu se reorganizar em campo e aguentou até os 39’ do segundo tempo, quando Aílton chutou de fora da área, dando fim ao sonho lusitano, e também ao de milhões de outros brasileiros, que haviam adotado a equipe para torcer naquela reta final.

O TIME:

Gol – Clemer foi seguro durante toda a competição e deu lugar a Márcio Defendi apenas em duas ocasiões, quando estava suspenso.

Zaga – Os jovens Émerson, Marcelo e César se intercalaram na titularidade ao longo da competição, uma vez que lesões e suspensões foram constantes. 

Laterais – Os nomes eram parecidos: Zé Roberto pela esquerda e Carlos Roberto pela direita. Quando Zé ia para o meio-de-campo, Carlos era deslocado para a esquerda, e Valmir entrava em seu lugar.

Meio-Campo: Talvez o setor mais forte e com nomes mais conhecidos à época: os volantes Capitão e Gallo (além de Roque, que entrava quando necessário), e os meias Caio e Zinho. Também foi na meia que Zé Roberto disputou algumas de suas melhores partidas àquele ano.

Ataque – Apesar de não ter sido titular na maior parte do torneio, Alex Alves marcou gols históricos e foi decisivo nas fases finais, se tornando um dos mais queridos daquele elenco pela torcida. Rodrigo, que ainda não era conhecido pelo sobrenome Fabri, foi eleito a revelação e também o melhor jogador do campeonato. Outros nomes como Tico, Flávio Guarujá, Nelson Bertolazzi e Luciano deixaram seus gols.

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