Birungueta do Kükesi



Por Leandro Paulo Bernardo

Não achem que o titulo desse texto é alguma frase em qualquer língua africana, algum golpe de capoeira ou mais uma onomatopeia musical do Carlinhos Brown. Estou me referindo ao jogador paraibano Birungueta e do Kukësi, o seu atual clube na Albânia. O menino João Emanuel Ferreira Souza deu seus primeiros passos na escolinha do "Seu Pedro" e no Paulistano, um clube de futebol amador do simpático bairro da Liberdade em Campina Grande. Recebeu esse apelido em referência ao seu pai que também era conhecido por Birungueta e foi lateral esquerdo do Treze e do Guarany de Sobral nos anos oitenta.

Desde cedo era o xodó das categorias de base do Galo da Borborema, chegou ao clube com treze anos e sempre se destacava ao jogar como meia-atacante. Se profissionalizou em 2011 aos dezoito anos de idade, no mesmo período em que o seu campinho de infância foi vendido para uma grande rede de supermercados, fato que entristeceu todo o futebol amador do interior da Paraíba (tal qual a perda do Viejo Gasômetro para o bairro de Boedo e para o San Lorenzo).


Birungueta pelo juvenil do Paulistano no saudoso Campo da Liberdade.

Em 2012 foi emprestado por seis meses ao Itapipoca para adquirir experiência. Retornou logo ao Treze, porém em dezembro de 2014, após o rebaixamento do Treze para a série D, foi jogar no Linense e em junho de 2015 foi vendido para o Kukësi da Albânia. Talvez fosse esse o “simbolismo subliminar” que havia entre o “garoto da Liberdade” com a cidade símbolo de paz pela ONU e para um povo que fugiu de uma guerra.

O Futboll Klub Kukësi foi fundado em 1930, recebeu o atual nome em 2010 quando passou por fortes reformulações e vários investimentos. Na temporada 2010-2011 venceu a terceira divisão e no ano seguinte foi vice-campeão da segunda divisão. Nas últimas três temporadas na elite ficaram com a segunda colocação, sempre abaixo do também emergente e atual força maior do futebol local o Skënderbeu Korçë. Esteve presente nas duas últimas finais da Copa da Albânia, à qual perdeu respectivamente para o Flamurtari Vlorë e para a equipe do Laçi. Já disputou três edições da Liga Europa em suas fases preliminares, na primeira edição passou por três fases iniciais e foi eliminado no último playoff pelo Trabzonspor, na segunda edição foi eliminado na primeira fase e na ultima participação foi eliminado na terceira fase inicial pelo Legia Warsaw. 

O crescimento repentino obrigou o clube a organizar várias reformas no estádio Zeqir Ymeri (até 2010, estádio Përparimi). Nunca houve restrições nos estádios nas ligas mais baixas do futebol albanês. Em Julho de 2010 começou o trabalho para iniciar a construção do estádio, que foi conjuntamente financiada pela Associação de Futebol da Albânia, o município de Kukës e UEFA, houve um investido de € 576.000 no estádio. A inauguração do estádio foi no dia 30 de novembro de 2010, em um amistoso contra o Partizani Tirana, com vitória do Kukësi por 1-0. Atualmente possui a capacidade para cinco mil torcedores. Zeqir Ymeri foi um ex-jogador do clube. O clube fica localizado na cidade de Kukës, ao nordeste do país, distante 150 km da capital albanesa,Tirana, e a 20km da fronteira com Kosovo (por isso o primeiro nome do clube foi Shoqëria Sportive Kosova). A “cidade original” foi transferida para a construção de uma hidroelétrica. A velha Kukës foi submersa sob um lago artificial em 1976 (processo semelhante ao de Petrolândia em Pernambuco). A nova cidade foi construída na década de 1970 em um planalto nas proximidades e fica à 320 metros acima do nível do mar sendo ainda cercada pelo lago artificial Fierza. Ao seu redor fica a montanha de neve Gjallica, 2468m acima do nível do mar. Possui aproximadamente dezesseis mil habitantes no momento.


A relação com o Kosovo veio antes da Primeira Guerra Mundial quando a resistência albanesa parou uma invasão da Sérvia em 1912. Apesar de ser uma zona de maioria albanesa, Kosovo foi integrada à Sérvia e não ao principado da Albânia, que foi criado naquele ano após declarar sua independência do Império Otomano. Ocorreram rebeliões albanesas para reintegrar o Kosovo entre 1918 e 1924. Entre 1941 e 1944 foi anexada à Albânia, sob ocupação italiana. Após a Segunda Guera, Kosovo foi reintegrado à Iugoslávia, como território autônomo.

Em Março de 1999 eclodiu uma guerra em Kosovo, que lutava por sua independência desde 1991. Durante esse período Kukës ficou marcada no cenário mundial durante o conflito do Kosovo, quando cerca de 450.000 refugiados albaneses do Kosovo cruzaram a fronteira e foram alojados em casas na zona rural e até mesmo nas praças da cidade. A população, temporariamente, aumentou quase trinta vezes, algumas residências registraram até a presença de doze refugiados, sem luxo nas alimentações ou nas instalações. Mas dormiam longe da guerra e protegidos do frio

Em 2000 Kukës foi a primeira cidade no mundo a ser indicada para um prêmio Nobel. Em 2012 a União Europeia concedeu-lhe um prêmio e classificou a cidade como referência ao receber refugiados, principalmente porque a União Europeia possui uma população de 507 milhões de pessoas, mas não consegue receber e acomodar 120 mil refugiados sírios por exemplo. Uma foto marcou esse período na região para o mundo. Agim Shala, um garotinho de dois anos, sendo atravessado por seus familiares, entre a cerca de arames na fronteira com Kosovo, para fugir da guerra. Essa fotografia concedeu a Carol Guzy o prêmio Pulitzer em 2000.


O elenco atual do clube conta com cinco brasileiros; Birungueta, Jean Carioca, Mateus Lima (com passagem pelo Sport), Williams Recife e Erick Flores (sim, aquele revelado pelo Flamengo) e a atual fornecedora do material esportivo também é do Brasil. O clube atualmente está na terceira posição da Superliga Albanesa, que lhe garante uma vaga na primeira fase eliminatória da Liga Europa, e novamente na final da Copa da Albânia. Economicamente o país ainda é um dos mais pobres da Europa, mas no futebol vem evoluindo. Na fase eliminatória da Eurocopa de 2004 a seleção comandada pelo alemão Hans-Peter Briegel ficou invicta jogando em casa, além do fato inédito de não ter ficado em último, algo sempre comum em outras situações. Em 2015, o Skënderbeu Korçë chegou à última fase eliminatória da UEFA Champions League e participou da fase de grupos da Liga Europa. Mas o ápice será em junho desse ano, a Albânia irá jogar a fase final da Eurocopa, ficará no grupo da anfitriã, a França. Sobre todo esse enredo conversei com Birungueta, à qual me cedeu essa ótima entrevista. 

Como está o clima no país para a disputa da Eurocopa?

O país se encontra num clima muito bacana. É a primeira vez que a sua seleção disputa a Eurocopa. Estão bastante otimistas, pois a mesma vem numa crescente positiva, como jamais esteve. 

O campeonato ficou mais animado com o bom momento da seleção albanesa? Dos locais em que jogou, Paraíba, Ceará, São Paulo e Albânia, qual é o mais difícil?

Com certeza, pois todos os atletas nesse momento, almejam destaque para quem sabe, conseguir uma vaga na seleção. Quando joguei na Paraíba e no Ceará achei o futebol dos dois muito semelhante de uma forma geral. Já em São Paulo, o tático e o técnico são bastante exigidos pelo clube. Mas, aqui na Albânia o tático e o físico é muito exigido, também, por esse motivo acho o futebol daqui mais difícil, pois você precisa correr sem perder a concentração, taticamente falando, durante os noventa minutos. 

Como você recebeu a proposta de ir jogar lá? Você conhecia algo desse país? Conte um pouco sobre a estrutura do clube?

A proposta me veio através de um amigo. Não conhecia absolutamente nada sobre a Albânia, já havia ouvido falar, mas nada além do nome, pois um amigo havia feito uma passagem rápida por aqui, mas não me aprofundei nos assuntos daqui antes de vir. O clube conta com uma estrutura que atende bem as necessidades do atleta. Estamos em uma boa evolução, o clube já disputou três fases eliminatórias da Liga Europa. Nesse ano tive a oportunidade de jogar uma competição da UEFA, foi muito legal, jogamos na Bielorrusia, em Montenegro e por fim na Polônia

Qual a maior dificuldade de se morar na Albânia?

As maiores dificuldades que enfrentei aqui foram o idioma, o Albanês, e a saudade da comidinha nordestina (risos).

Tem acompanhado o futebol no Brasil? Como você recebeu a notícia da eliminação do Treze no estadual e o fato do clube ficar parado até janeiro do próximo ano?

Sim. Sempre que posso estou antenado nas redes sociais acompanhando a quantas anda o futebol brasileiro. Fiquei triste, porque é difícil ver um grande clube, com uma grande história, que foi também o que me revelou para os gramados se encontrar nessa situação. 

Quais os seus projetos para a carreira? Chegou a receber alguma proposta para naturalização?

Meu plano de carreira nesse momento é fazer um grande campeonato aqui, como já vem acontecendo, para assim deixar a minha marca na história do Kukësi e me consagrar como campeão. Nenhum brasileiro foi chamado pra se naturalizar (atualmente a liga albanesa tem 20 brasileiros), precisa morar por um certo período no país também, mas se tivesse o convite não pensaria duas vezes. Gosto muito daqui e estou muito feliz. A seleção Brasileira é muito difícil e tem que ter um ajuda muito forte de todas as partes.

Depois de muitos anos do êxodo maciço dos Kosovares, como está a situação na fronteira com Kosovo?

Tudo calmo, Kosovo e Albânia são países unidos, é muito difícil distinguir um do outro, pois os laços culturais e de amizade marcaram a população dos dois países, mais ainda na região em que jogo. Aqui talvez seja um dos poucos lugares da Europa onde não notamos algum racismo, somos muito bem tratados aqui. 

***********************************************************

Encerro esse texto agradecendo ao meu amigo e do Birungueta; Germano Gomes, um grande apaixonado pelo Bairro da Liberdade, que proporcionou esse meu encontro com o jogador e com mais um motivo para comprovar que existem lindas historias além de uma simples partida de futebol.

Nenhum comentário

Deixe seu comentário:

Tecnologia do Blogger.