Capelense, um símbolo do interior de Alagoas


Por Leandro Paulo Bernardo

Na época do Brasil colonial, a zona da mata alagoana e mata sul de Pernambuco pertenciam a um único território, a capitania de Pernambuco. Era uma região canavieira, com grandes usinas, engenhos, de água e mata atlântica. Os grandes quilombos estavam por lá, inclusive o mais famoso; o Quilombo dos Palmares chefiados por Zumbi. Em termos futebolísticos, as 21 cidades pernambucanas jamais tiveram um representante na primeira divisão estadual.

Nas 23 cidades da mata alagoana (junto à serrana dos Quilombos) poucas equipes conseguiram algum destaque. Comercial de Viçosa, União e Zumbi de União dos Palmares sempre se alternam entre a elite e a segundona. Recentemente, o Murici conquistou o estadual de 2010 e já participou da série D e da Copa do Brasil. Mas até hoje, o Capelense foi o maior representante regional daquela antiga capitania, sendo o primeiro clube do interior, tanto de Alagoas e de Pernambuco, que disputou uma Copa do Brasil.

A cidade de Capela fica distante 61 km da capital Maceió. A Princesa do Vale do Paraíba é banhada pelo Rio Paraíba, Tem como sua principal atividade econômica o plantio de cana-de-açúcar, a pecuária e alguns centros de artesanato. Durante o apogeu das usinas de cana de açúcar ficou conhecida como a terra dos canaviais.

O Centro Sportivo Capelense foi fundado no dia 4 de abril de 1946. Foi a primeira equipe profissional da cidade, que já tinha fama de jogar um bom futebol em todo o estado. Vivenciou duas épocas douradas. A primeira foi no final da década de cinqüenta e começo da década de sessenta, sobre a presidência do Dr. Horácio Gomes, que era o Juiz da cidade e segundo relatos de pessoas próximas teve grandes oportunidades de seguir uma brilhante carreira jurídica, mas jamais queria ficar ausente por muito tempo do Capelense.

Em 1958, o clube viveu sua maior tragédia, durante um amistoso no Estádio Manoel Moreira. Ozório, o goleiro do Capelense, chocou-se com o atacante Barra. Foi socorrido, mas veio a falecer horas depois em sua residência que ficava ao lado do estádio. Ozório era muito querido na cidade.

No primeiro ano que disputou o campeonato da divisão especial, em 1959, foi campeão com todos os méritos. Disputou o título com o CRB em uma melhor de três, e ganhou dois jogos. Foi a primeira equipe do interior alagoano a conquistar um título dentro de campo, já que a primeira conquista do ASA em 1953 veio após a desistência do Ferroviário para disputar a final. A conquista foi dedicada ao goleiro Ozório.


A dose foi repetida em 1962. Estreou perdendo por seis a um do CRB, mas conseguiu se recuperar ao longo do campeonato e conquistou o título, vencendo o extinto Estivadores na final, ganhando o primeiro jogo e empatando o segundo. Naquele time, apenas Aguiar que tinha jogado no CRB e Zé de Gemi que defendeu a seleção sergipana não eram do interior. A grande maioria era natural de Capela ou das Usinas de Alagoas e Pernambuco. Possuía uma equipe brilhante, com um trio de ataque fantástico formado por Corino, Geofonso e Bernadino. Este último jogou 22 anos pelo galo capelense, conciliava a carreira de jogador com o trabalho de carcereiro na cadeia municipal e sapateiro.


O jogador craque do time, também era o treinador; Claudinho, um grande ídolo alagoano que chegou a jogar pela seleção nacional e era filho do principal fundador do CRB, Lafaiete Pacheco. Ele tinha acabado de voltar a morar em Capela, após trinta e um anos, havia comprado uma propriedade. Depois do título foi escolhido como o treinador da seleção alagoana para disputar a antiga competição entre estados, ficou no galo dos canaviais até o início de 1966, quanto retornou à Maceió para treinar o galo da Pajuçara.

No final da década de 60, o Dr. Horácio parou de financiar o clube, pois não tinha forças para intervir na equipe, já que transferia todas as decisões do clube para Claudinho. O time entrou em crise, mesmo após o vice-campeonato de 1965 (já contando com o zagueiro Zé Cláudio). Em 1968, como tantos outros clubes alagoanos da época, terminou se afastando das competições oficiais em Alagoas por motivos financeiros. Segundo relatos daquele período, tanto os clubes de Maceió quanto os de Arapiraca comemoraram o afastamento de um rival forte, do qual todos temiam. 

Quatro anos depois, aproveitando o apogeu da economia canavieira e o sucesso de uma equipe local nos torneios do interior (o chamado campeonato Matuto) foi criada na cidade uma nova equipe, o Canavieiro Futebol Clube. O alviverde subiu para a primeira divisão em 1974, era muito associado ao antigo Capelense, sendo presidido pelo antigo ídolo, o coronel Zé Cláudio e com os filhos do Bernadino jogando no time amador. Obteve a quinta colocação em 1975 e dois quartos lugares consecutivos. O futebol em Capela voltava a apavorar CRB, CSA e ASA. O coronel era presidente, preparador físico, "médico", massagista e disciplinador, seus métodos iam do folclórico ao ortodoxo.

Ele pessoalmente dava colheres recheadas de Biotônico Fontoura pela manhã e Emulsão Scott pela noite aos jogadores, cronometrava os 6 km de aquecimento com corrida nos canaviais e redigia a cartilha do atleta em Capela. Uma regra contratual fazia sucesso com as mulheres da cidade; jogador de outra cidade que quisesse namorar alguma menina da cidade, só poderia, caso tivesse intenção de casar", caso o atleta saísse da linha de contida do coronel, ele mesmo os enviava para a cadeia municipal, sob a vigilância do carcereiro Bernardino. O jogador Café foi preso e ficou alguns dias na cadeia por "mexer" com mulher casada.

Durante uma partida, o presidente foi pessoalmente a arquibancada para trocar socos e pontapés com torcedores que vaiavam o goleiro Cícero após uma falha. Em outra situação, deu uma surra em um jogador que chegou embriagado na concentração do time. Ele não vendia nenhum "craque" do time (dizia; "No Canavieiro, só sai de graça o bagaço".) que possuía uma equipe sólida, com o célebre trio no meio de campo formado por Rosquinha, Cigano e Pistola e os gols do atacante Misso.

Chegou a impor no CSE, seu rival mais próximo, sua maior derrota (sete a zero em plena Palmeira dos Índios). Mas o "Coronel" também sabia cativar o grupo, e em 1977 o clube foi jogar contra o CSA em Maceió. Era um feriado em plena quinta feira, o clube saiu logo cedo para a capital e Zé Cláudio liberou o mergulho e a cerveja. Após 40 garrafas o clube foi direto da praia para o estádio Rei Pelé, venceu o azulão por 3 a 1. O zagueiro Quinho chegou a declarar para a Revista Placar; O time do CSA está tão ruim, que mesmo eu jogando embriagado, venci e ainda quase marquei meu golzinho".

O Canavieiro não possuía o carisma do velho Capelense e a torcida local não gostava da associação do clube com os usineiros da região. Em 1978, depois de uma reunião com a diretoria, o coronel Zé Cláudio decidiu mudar o nome Canavieiro para Capelense, com uma simples explicação; o nome Capelense dá mais sorte, com ele já fomos duas vezes campeões estaduais".

O galo passou o início dos anos oitenta com altos e baixos. Os únicos momentos de fama vinha das atuações do goleiro Zé Luilson, chegando inclusive a ser escolhido como O GOLEIRO DO FANTÁSTICO, após uma excelente atuação contra o CSA no Rei Pelé.


No final de 1988 o Coronel montou uma equipe forte e iniciou algo inédito para uma equipe alagoana, pré-temporada. O comando ficou por conta do experiente treinador João Paulo de Oliveira, o Pinguela, que comandou grandes times do CSA e do CRB na década de 60 e que havia sido treinador de Zé Cláudio na conquista do alagoano de 1963 pelo azulão do mutange. Estava iniciando a segunda época dourada do alvirrubro.

Chegaram várias contratações, como o saudoso e espetacular arqueiro Jorge Hipólito, o lateral direito Cafezinho (aquele que brigou com o Romário), o volante Borçato (recordista de expulsão mais rápida do campeonato brasileiro). A cidade se mobilizou com a equipe e o clube obteve a melhor média de público do campeonato, aproximadamente mil e seiscentas pessoas por jogo. 

O Capelense sagrou-se campeão alagoano de forma indiscutível, venceu os três turnos disputados, disputou 38 jogos com apenas uma derrota (perdeu por um a zero para o CSA em casa) foram 28 vitórias e 9 empates. Marcou 62 gols e tomou apenas 10, tendo o artilheiro da competição, Orlando com 24 gols. Jorge Hipólito ficou 760 minutos sem tomar gol.





O titulo de 1989 assegurou uma vaga na segunda divisão do Brasileirão daquele ano. O clube ficou em um grupo com CRB, CSA, Central, Santa Cruz e América de Recife, entretanto já estava bastante endividado após o estadual, foi preciso vender alguns jogadores, as usinas da região passavam uma grave crise financeira e a cidade de Capela sofreu uma grande enchente em Junho. Tiveram que mandar seus jogos na cidade de Viçosa (distante 25 km), e confiou na ajuda prometida pela CBF de dois mil cruzados novos (aproximadamente seis mil reais) por jogo.

O presidente Zé Cláudio afirmou que nunca recebeu o dinheiro prometido. Enquanto o time jogava uma partida contra o Central em Caruaru, o ônibus da equipe foi assaltado na rua em que estava estacionado, levaram as roupas dos jogadores e certa quantia em dinheiro dos dirigentes. Os atletas viajaram de volta para casa com o uniforme de jogo. Apesar da tristeza do time, aquela noite de domingo foi mágica para mim.

A cidade que cresci, Quipapá, fica no meio do caminho entre Capela e Caruaru. Uma parte da delegação errou o caminho pela BR 104 e foram parar na primeira rua de Quipapá. Minha avó paterna morava naquela localidade e eu estava em frente da casa dela. Pude ver dois jogadores com uniforme de jogo, o bastante para ficar deslumbrado... "Uma equipe de futebol diante de mim". Perguntaram o caminho correto para o zelador da estação ferroviária e foram embora... Levaram magia para minha imaginação infantil que já amava o futebol.

O Capelense terminou a segunda divisão nacional na quarta posição, acima apenas do CSA e do América de Recife. As finanças ficaram piores ainda, mas a epopéia do clube ainda teria outra competição nacional que estava nascendo.

O título de 1989 assegurou a participação na 2ª edição da Copa do Brasil em 1990. Junto do Treze, foram as primeiras equipes nordestinas do interior a jogar o torneio. O sorteio colocou o futuro campeão no caminho do Galo, o Flamengo. Disputou duas partidas contra o time carioca. A primeira foi no dia 21 de Junho, no mesmo período da copa do Mundo.

Naquela noite, 188 pagantes foram até o estádio de Moça Bonita ver o Flamengo golear o Capelense por 5x1. Essa partida marcou o pior público da história do Flamengo como mandante em competição nacional. No jogo de volta, o galo levou mais quatro gols e acabou eliminado. Recordo-me até hoje daquela partida, ouvindo pela rádio Difusora AM, torcendo pelo atacante Ibateguara, homônimo da cidade alagoana vizinha da minha. Geograficamente, jamais tinha visto alguém chegar tão perto do time de Zico, que havia se aposentado quatro meses antes. A reportagem abaixo de outro “filho da mata", Márcio Canuto (natural de São José da Lage) descreve o jogo histórico... Para ambos:


Em 1991 a direção resolveu mais uma vez se afastar do futebol profissional, voltando, somente em 2005. Em 2008 sagrou-se campeão alagoano da 2ª divisão, mas no ano do retorno à elite do futebol alagoano foi rebaixado para a 2ª divisão. Ao lado do Coruripe, ainda possui a quarta posição nas conquistas de títulos estaduais. A cidade de Capela teve a partir de 1992 outro representante na elite estadual, o Capela Esporte Clube, que havia sido criado em 1975 e estava recebendo forte apoio politico e financeiro de um grupo rival do Capelense. O lobo guará venceu a segunda divisão em 1991 e permaneceu 14 anos na elite do campeonato da terra dos Marechais. Alternou boas e más campanhas, obtendo apenas um título, a artilharia do campeonato alagoano de 1993 com o centroavante Cacau.


Atualmente a cidade não possui nenhum clube disputando a segunda divisão estadual. O Coronel Zé Cláudio ainda comanda o Galo dos canaviais. Até hoje por aqui, quando algum zagueiro bruto chuta a bola para fora de qualquer estádio, o chamamos de "Usineiro"... Dizem que foi o legado futebolístico daqueles times de Capela. A avenida central da cidade chama-se Dr. Horácio Gomes e um ginásio de esporte leva o nome do craque Bernadino.

Muitas usinas da antiga capitania acabaram, a mata atlântica foi quase toda destruída, o IDH da região é um dos mais baixos do país e outras duas grandes enchentes em 2000 e 2010 castigaram ainda mais as cidades. Eu ainda não conheço pessoalmente a cidade de Capela, queria ir ao estádio Manoel Ferreira, entretanto posso afirmar sobre o Capelense; "Esse esquadrão; Eu vi, eu ouvi... Eu recordarei eternamente com muito carinho".

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