Green Cross, o clube que acabou em um acidente aéreo


Green Cross: campeão chileno de 1945
O Green Cross foi um clube pioneiro no futebol chileno, mas que acabou por ter um fim trágico e melancólico. O clube foi fundado em 27 de junho de 1916 em Santiago, por estudantes dos colégios San Ignacio, San Pedro Nolasco, Seminario e dos Sagrados Corações. Inicialmente, foi dado o nome de Club Royal, mas logo se decidiu pela mudança de nome para Green Cross, e pela definição do símbolo da equipe. O escudo do clube era uma simples Cruz Templária verde (similar à utilizada pelo Vasco da Gama). Os uniformes variavam entre camisas inteiramente brancas ou verdes, mas também pela bonita combinação de camisas brancas com faixas diagonais verdes.


Inicialmente exclusivamente dedicado ao futebol, passou a oferecer outras práticas esportivas ao longo dos anos, como pólo aquático, basquete, ciclismo, natação, atletismo, rugby e até mesmo automobilismo. Augusto Larraín, que também havia jogado pela equipe, era um destacado piloto. No início dos anos 20, o Green Cross disputava as competições locais pela Asociación de Football de Santiago, a AFS. Em 1926, foi uma das fundadoras da Liga Central de Football de Santiago e em 1933, ao lado das principais equipes do país da época, foi um dos clubes fundadores da Liga Profesional de Football (atual ANFP), que passou a reger o futebol de clubes do Chile. 

O Green Cross sofreu nesse início. Em 33, terminou na penúltima posição. Em 34, ficou definido que a partir de 1935 haveria uma segunda divisão, e o Green Cross terminou novamente na penúltima posição, sendo rebaixado para a recém criada competição. Foi preciso quatro temporadas para que o clube retornasse à elite do futebol chileno. Em 38, os quatro primeiros subiriam, e o Green Cross terminou a competição na quarta posição. Em 39, no retorno do time à primeira divisão, ficou na modesta oitava posição. Porém, teve um destaque individual. O avançado Juan Morcillo, maior goleador da história do clube com 75 gols, marcou em doze rodadas consecutivas, recorde que perdurou até o Apertura de 2004, quando o meia Jaime Riveros, então no Santiago Wanderers, marcou 21 gols em 15 rodadas seguidas.


Após o retorno, o clube se manteve na primeira divisão até 1958 (apesar de ter terminado em último em duas ocasiões, mas por não ter sido disputado a segunda divisão, não houve rebaixamento). Nesse meio tempo, o Green Cross finalmente conquistou seu único título na divisão máxima, em 1945, comandados por Eugenio Ibarra e liderados em campo pelo argentino Juan Zárate, autor de 17 gols. O elenco campeão era formado por Jorge Araya, Guillermo Jaime, Francisco Ruiz, Criserio Zambrano, Emilio Converti, Santiago Salfate, Juan Manuel Acuña, Mario Carmona, Luis Orlando, Juan Zárate, Nobel Biglieri, Jorge Nicolás, Pablo Hormazábal, Alejandro Araya, Carlos Maturana, Teodoro Araya, Jorge Carmona e Orlando Schneeberger. 

Em 56, realizaram uma excursão pela Europa, realizando alguns impensáveis duelos. Na então Iugoslávia, venceu o Hadjuk Split por 2 a 1, quebrando uma invencibilidade de 16 anos como local do clube croata. Posteriormente, enfrentou o Dínamo Zagreb, o Estrela Vermelha, o Alemannia Aachen, Seleção da Tchecoeslováquia, da Dinamarca e da Bulgária. Depois da queda em 58, foram apenas duas temporadas na segunda divisão, pois em 1960 o Green Cross sagrou-se campeão e voltou à elite. Mas o fato que marcaria definitivamente a história do clube, aconteceu fora dos gramados.

Em 1961, após um jogo pela Copa Chile, contra um selecionado da cidade de Osorno, sul do país, a equipe precisava voltar a Santiago. Em uma época que os voos comerciais não eram tão frequentes, e em plena Semana Santa, os jogadores, a comissão técnica e até os árbitros da partida, só conseguiram voo dois dias depois do jogo, em 3 de abril. O grupo teve de ser dividido em dois voos. Um com escala em Temuco, Pucón e Concepción, e outro mais rápido, com uma parada apenas, em Temuco. Alfredo Gutiérrez tinha um bilhete para o voo mais rápido, mas trocou de lugar com Héctor Toledo. "Ele me pediu para trocar de passagem, porque conhecia mais gente no outro avião. Como conhecia a todo, não tive problemas em fazer a troca e na hora de embarcar demos o nome um do outro", disse Gutiérrez em entrevista ao site chileno La Tercera. Mal sabia Gutiérrez que essa troca salvaria sua vida.

O voo DC-3 nº 210, da empresa de aviação chilena LAN, com 24 passageiros, se chocou de maneira misteriosa com o solo, a cerca de 3200 metros de altura acima do nível do mar, em plena Cordilheira dos Andes. Não houve sobreviventes. Eram eles: oito jogadores do Green Cross (Manuel Contreras, Dante Coppa, Berthe González, David Hermosilla, José Silva, Alfonso Vega, Héctor Toledo e o argentino Eliseo Mouriño, bicampeão da Copa América e parte do elenco da Argentina na Copa de 58), o técnico Arnoldo Vásquez, os árbitros Gastón Hormazábal, Roberto Gagliano e Lucio Cornejo, o preparador físico Mario González, o funcionário da Asociación Central de Fútbol, Pedro Valenzuela, o representante da Asociación Nacional de Fútbol Amateur (ANFA), Luis Medina, o ex-deputado Moisés Ríos, os passageiros Armando Hita, Guillermo Schade e María e Gabriela Andrade, além dos tripulantes Silvio Parodi, Carlos Jorquera, Evaristo Casanova e Hernán Etchebarner.

O avião havia decolado de Temuco às 18h28. 42 minutos depois o piloto informava a formação de gelo nas asas da aeronave. Às 19h35, fez o último contato solicitando a mudança de rota para evitar o aumento de gelo, e então desapareceu. Durante as buscas foram encontrado apenas destroços e alguns restos mortais. A maioria dos corpos jamais foi encontrada. Houve grande comoção em todo o país, e até mesmo fora dele. O Boca Júniors, ex-clube de Eliseo Mouriño, fez questão de emprestar quatro jogadores sem custo algum como forma de ajudar a equipe a se manter. Em 2015, 54 anos após o fatídico acidente, um grupo de alpinistas encontrou em uma montanha próxima à cidade de Linares, uma parte considerável da fuselagem da aeronave, além de restos mortais intactos ao tempo. 


O Green Cross, que entre 41 e 65 cedeu oito jogadores para a seleção nacional, ainda resistiu alguns anos após o acidente, mas o fim do clube era inevitável. Em crise econômica, principalmente em razão da tragédia, o clube ainda se viu em meio a um escândalo, quando descobriu-se que o então diretor de futebol do clube, Fernando Jaramillo, que também trabalhava no Banco Central do Chile, havia desviado uma grande quantia de dinheiro, boa parte par ser usada para sanar as diversas dívidas do Green Cross, que ainda acabou rebaixada em 62. Em 63, foi campeão invicto da segunda divisão, mas sem apoio, com uma torcida irrisória e em contínua crise financeira, foi tomada uma decisão que cravou o término da história desse clube. Em 1965, o Green Cross se fundiu com o Deportes Temuco, fundado há poucos anos e com grande apoio da cidade de Temuco. A nova equipe manteve o nome Green Cross-Temuco até 84, e depois voltou a se chamar Deportes Temuco. Entre os anos 90 e 2000, ainda houve tentativas de reviver o antigo clube, todas frustradas. 

Nenhum comentário

Deixe seu comentário:

Tecnologia do Blogger.