United of Manchester e a razão de existir de qualquer clube


Em tempos em que torcedores comemoram números de sócios, renda das partidas e contratação de diretores de futebol, é importante pararmos para refletir qual a função da existência de um clube de futebol. Nos primórdios do esporte, era basicamente reunir gente suficiente para sua prática. Aos poucos, com a popularização, os clubes, e consequentemente suas conquistas, se transformaram em uma forma de afirmar a si mesmo. Ressaltar o orgulho por uma cidade, uma cultura, uma região, enfim, uma maneira de união entre a comunidade. É uma via de mão dupla. A torcida passou a defender o time, e o time passou a defender sua torcida. Assim é até os dias de hoje, mas a mercantilização do esporte, fez com que algumas pessoas com poder pensem ser mais importante conquistar um público do outro lado do planeta do que o rapaz que mora a algumas quadras do estádio. E foi exatamente na contramão dessa tendência que nasceu o Football Club United of Manchester.

Tudo começou no gigante e poderoso Manchester United. O clube era de capital aberto desde 1991, mas no primeiro semestre de 2005, os torcedores mais tradicionalistas sofreram um duro golpe. O milionário estadunidense Malcom Glazer, dono do time de futebol americano Tampa Bay Buccaneers, comprou o United. De acordo com o FCUM, essa não foi a principal razão, mas o estopim para a cisão entre parte da torcida e clube. Foi assim que nasceu uma equipe voltada para a paixão do torcedor, e não para os milhões de dólares.

Durante muito tempo, quem se manteve com o clube original (mas que já não é mais o mesmo, segundo seus dissidentes), levou cachecóis nas cores verde e amarelo, lembrando as origens do United como forma de protesto. Para quem ficou, a temporada de 2007-08 praticamente inibiu qualquer tipo de mágoa. Para quem se foi, também não restou qualquer desavença. Pelo contrário, o United of Manchester seguiu seus próprios passos.


Desde sua fundação, o FCUM se propôs a ser uma equipe dos torcedores para os torcedores. Todos os clubes deveriam entender e praticar essa filosofia. No site oficial, isso é destacado em um dos textos. "O FC United busca mudar a maneira que o futebol é gerido, colocando os torcedores no coração de tudo". O mais irônico, é que essa forma de tratar o público também conquistou adeptos do outro lado do mundo, tal qual a equipe mais famosa da cidade. Em 14 de março de 2015 foi realizado o primeiro encontro de torcedores do FCUM na China. 

A média de público, em geral, é uma das maiores das ligas em que participa, beirando as 2 mil pessoas por partida. A evolução da equipe em campo e o aumento de adeptos, deu ao clube a certeza de que era hora de dar um novo passo. No dia 29 de maio de 2015, inaugurou um antigo sonho de todos, o estádio Broadhurst Park, com capacidade para 4.200 torcedores, que fica a nordeste do centro de Manchester, e que foi construído a partir de um fundo criado pelos torcedores. O jogo de abertura foi diante do Benfica, que mandou sua equipe B. Os encarnados foram escolhidos por representarem o primeiro momento de glória do Manchester United na Liga dos Campeões, já que o Benfica foi o rival do United na final de 1968, no qual os Red Devils venceram por 4 a 1, também num dia 29 de maio. Mas dessa vez, os portugueses venceram por 1 a 0. Para a temporada atual, foram vendidos mais de 2 mil  season tickets


No dia da inauguração do novo estádio, faixas que mostram bem o espírito do FCUM. "Nosso clube, nossas regras" e "Povo e Futebol - Unidos"
Em todas as ações e palavras, o clube faz questão de deixar claro a aliança entre time e comunidade, desde a fundação, com o estabelecimento de alguns princípios, como eleições diretas para a direção e a manutenção do clube como organização sem fins lucrativos, além de promover diversas ações com a comunidade, como educação para jovens e adultos, por exemplo. E o mais legal de tudo isso, é que essa política se reverteu em resultados dentro de campo.

O United of Manchester começou na décima divisão, e já no primeiro ano conquistou o título da temporada 2005/06, com oito pontos sobre o segundo colocado. Na temporada 2006/07, na nona divisão, uma campanha ainda melhor. Novo título, dessa vez com 112 pontos marcados, 36 vitórias, 4 empates e apenas duas derrotas, tendo marcado incríveis 157 gols e sofrido apenas 36, além do título amistoso da Supporters Direct Cup e da Copa da Liga de North West Counties.


Festa do primeiro título da equipe (Andy Barker)
Em 2007/08, nova promoção, dessa vez vencendo os play-offs de acesso, além de outro título de copa, a President's Cup. Também foi o ano da primeira participação na FA Cup. Na sétima divisão, a partir de 2008/09, os desafios passaram a ser mais complicados. Foram sete temporadas batendo na trave, com eliminações nos play-offs, até conquistar o sonhado acesso para a sexta divisão, justamente no ano do décimo aniversário do clube, sacramentado com o título.

Até hoje, o clube jogou mais de 550 partidas oficiais, todas elas sob o comando do técnico Karl Marginson, cidadão de Manchester que assumiu a equipe logo após encerrar sua carreira como meio-campista. O maior artilheiro da história do time é o atacante norte-irlandês Rory Patterson, com 99 gols. Ele atuou entre 2005 e 2008, e retornou ao clube em 2015. O meia Jerome Wright, de 31 anos, é o mais experiente da equipe e já atuou em 351 partidas, com 100 jogos a mais do que o segundo colocado nessa estatística.


Jerome Wright, recordista de jogos e ídolo da torcida (Matthew Wilkinson, fotógrafo oficial da equipe)
Atualmente, o clube semi-profissional está na Northern Premier League, equivalente a sexta divisão na pirâmide do futebol inglês. Possui também time feminino, de reservas e juvenis. A equipe principal encontra-se mais próxima da zona de rebaixamento do que da chance de um novo acesso. Mas a história demonstra que com a força de sua torcida, o United of Manchester é capaz de tudo, inclusive de um dia, quem sabe, alcançar as primeiras divisões. E claro, ter um encontro com o Manchester United.

Para entender, e principalmente refletir sobre como estamos vivendo nossa relação com nossos clubes, vale a pena assistir o documentário abaixo (em inglês), dirigido por Daniel Colbourne e gravado antes da construção do estádio, quando o FCUM estava utilizando as dependências do Bury, gentilmente cedido pelo clube, e durante o terceiro ano seguido falhando nos play-offs de acesso. É apaixonante e nos faz ver o que estamos perdendo.

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