O gol de bunda de Jô, uma vítima da violência


Imagem: Reprodução Placar / Fernando Silva (Ag. Lumia)
Folheando umas revistas antigas, me deparei com a foto acima. A situação me chamou a atenção instantaneamente. Reação natural, afinal, quem aqui já viu um gol marcado dessa maneira? Decidi na mesma hora contar essa história aqui no blog. E quem sabe, conversar com a autora desse gol. Mas assim que fiz a primeira busca no Google, tive uma surpresa desagradável. Mas antes de continuar, deixe-me contextualizar a história por trás da foto. Era um domingo ensolarado e quente em Recife. No dia 24 de outubro de 1999, pelo 1º Campeonato Pernambucano de Futebol Feminino, Sport e Santa Cruz se enfrentaram na Ilha do Retiro em jogo válido pela final do certame. O Leão da Ilha tinha a vantagem do empate. O jogo foi truncado do início ao fim e o placar final indicava um forte equilíbrio entre as equipes. Um único gol decidiu a partida. Poderia ser apenas mais um gol. De pênalti, de cabeça, de falta, ou mais um golaço. Mas foi um tento de pura ousadia. Em determinado ponto da partida, a atacante Jô, do Sport, aproveita falha de uma defensora do Santa Cruz e avança em direção à meta adversária. Em um único toque na bola, deixa a goleira para trás. Jô tinha o gol inteiro à sua disposição, podia entrar com bola e tudo. Mas com a maior tranquilidade, parou em cima da linha, esperou cruelmente a chegada da zagueira, e como se fosse a morena do É o Tchan!, deu uma "bundada" na bola, marcando um histórico gol que valeu o título para a equipe rubro negra e os holofotes, mesmo que temporários, em rede nacional. Nem o segundo cartão amarelo seguido de vermelho, por ter utilizado uma máscara do Mister M na comemoração, retirou a alegria de vencer o maior rival.


Rubro negra desde criança, Josenir Martins da Silva contrariou a família, quase toda Tricolor, para que pudesse jogar no Sport. Jô era apenas uma adolescente. Tinha 16 anos na data daquele gol. O feito insólito trouxe os 15 minutos de fama para ela e para o futebol feminino. Ou bem menos que isso. Mas o fato é que até o consagrado Armando Nogueira comentou o lance em sua coluna no jornal O Globo.

Jô vai fazer um gol de placa, entrando com bola e tudo. Pois, sim! Jô pára em cima da linha das traves, pisa na bola. Tem todo o tempo do mundo pra escolher como desferir o golpe de misericórdia. Pode dar um biquinho sarcástico. Pode dar um toque de calcanhar, bem malicioso. Jô deve ter pensado, num repente: gol de letra, muita gente já fez. Gol de calcanhar, então, quem já não fez? Gol de trivela, hoje, é coisa igualmente banal. Gol de peito, o Romário já fez. Gol de barriga o Renato Gaúcho já fez, por sinal, no Flamengo, decidindo o título num Fla-Flu. Pois Jô resolveu inovar e, num requinte de originalidade, senta na bola e faz um gol, literalmente, de bumbum.

Depois disso, a vida de Jô voltou ao anonimato que tanto caracteriza centenas de atletas no país. Se a realidade dos jogadores de futebol masculino em uma visão mais ampla não é das melhores, a de uma atleta do futebol feminino talvez seja ainda pior. O Sport foi novamente campeão no ano seguinte, mas em 2001 já não houve a realização do torneio. Sem jamais ter recebido para jogar, a garota seguia a vida em frente como qualquer outra pessoa.

Anos depois, abriu uma loja de videogames no bairro da Macaxeira, em Recife, para ajudar nas despesas os seus já idosos pais. E foi nessa mesma loja que a história de Jô teve fim. Seu irmão, José Carlos Martins da Silva, de 39 anos, então fugitivo da polícia por tráfico de drogas, estava morando com Josenir. Cansada da vida desregrada de José, discutiu com o irmão e o expulsou de casa. Para José, foi o suficiente para que às 19 horas do dia 27 de setembro de 2010, ele a matasse com um tiro à queima-roupa na cabeça. O filho de Jô, de apenas 5 anos, presenciou o ocorrido. José teria disparado contra a vítima outras duas vezes. O desfecho de um caso que já envolvia violência doméstica. Havia um histórico de ásperas discussões entre Jô e José, que muitas vezes acabava em agressão física.

A partir daí, minha missão foi tentar encontrar os rumos finais dessa história, mas esbarrei em detalhes burocráticos. José Carlos foi condenado? Foi ele mesmo quem a matou? Ele ainda está preso? Ou melhor, ele ainda está vivo? Passei cerca de quatro meses atrás dessas informações. Além disso, ainda nutria a curiosidade (tanto pelo instinto jornalístico quanto pelo senso de humanidade) de saber como está sua família, como está seu filho, que hoje deve ter uns 10 anos. Revirei a internet, vasculhei sites do judiciário pernambucano, consultei um amigo advogado pra ver se ele descobria algo e consultei colegas de Recife. Nada! Decidi então postar a história de Jô aqui no Escrevendo Futebol. Quem sabe alguém não conheça o final desse enredo. Espero que esteja tudo bem na medida do possível com a família de Jô, principalmente com seu filho. E espero também que a violência doméstica contra a mulher, seja ela originária do marido, de um pai ou de um irmão, seja tratado com o devido respeito que merece, em tempos de rápida propagação de intolerância. Quanto a Jô... bem, a Jô encontrou a eternidade merecida na história do futebol feminino de Pernambuco, e também do Brasil. 

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