Divididos pela guerra


O jornalista Tim Whewell, da BBC, contou na última quinta-feira, 31 de dezembro, a história de outro jornalista, o sírio Yasser al-Haji. Há muitos anos, bem antes do atual conflito bélico pelo qual a Síria passa, Yasser foi um jogador de futebol amador. Há cerca de 30 anos, sua paixão pelo futebol o fez montar uma equipe em Marea, pequena cidade ao norte do país, e conseguiu relativo sucesso, inclusive vencendo algumas equipes profissionais da cidade de Aleppo. Daquela época, tudo o que restou foi um pôster, da equipe posada. E muita saudade. "É doloroso olhar para essa foto. Eu fico muito emocionado. São sentimentos conflitantes sobre o que fizemos e o que aconteceu conosco", disse Yasser a Tim.

Tim o conheceu em 2012, durante a cobertura do conflito entre rebeldes e o governo sírio representado por Bashar Al-Assad. O complexo esportivo em que a foto se encontrava, era um dos poucos lugares que poderiam ser considerados seguros. Ao se deparar com aquela foto na parede, a curiosidade jornalística de Tim fez com que ele quisesse saber quem eram aqueles homens e onde estariam hoje. Yasser está na foto. É o último homem de pé, da esquerda pra direita.

Yasser foi contando a Tim quem eram aqueles homens. Bassam, o goleiro (segundo de pé, da esquerda pra direita) era sério e trabalhador e sonhava em se tornar um jogador profissional. Muhammad al-Najjar, ao lado de Yasser, era o "homem-perfume", por ser extremamente vaidoso com suas roupas e sapatos. Raed, o terceiro agachado da direita pra esquerda, magro e pequeno, era o mais novo da turma. O homem do meio da fileira de trás era Abdul Rahim, selvagem e impetuoso em campo. O terceiro de pé, Muhammad al-Farouh, alto e atlético, o atacante era quem puxava as músicas durante a ida aos jogos. 

As coisas não eram fáceis pra eles. As chuteiras eram de plástico, e ficavam com um terrível cheiro após os jogos. Suportar a torcida adversária era ainda pior, que não raramente atirava pedras ou fezes de ovelha. Além disso, o país já vivia sob tensão de conflitos bélicos. Em 82, houve o Massacre de Hama, em que o governo sírio de Hafez al-Assad, respondeu ao ataque de rebeldes da Irmandade Muçulmana da seita Alauíta de maneira desproporcional, matando mais de 10 mil pessoas, em sua grande maioria civis, de acordo com a Anistia Internacional. 

Tim também conversou com Raed, que quando tinha apenas 10 anos, viu seu pai, oposicionista, ser levado pela polícia para nunca mais voltar. "Eu estava sempre com medo. Medo de tudo, pois nosso regime era muito duro. Até hoje não sei onde está meu pai, se está vivo ou não. É melhor não imaginar, porque é horrível o que acontece em nossas prisões. Prefiro pensar que ele morreu há muito tempo", diz Raed, que aos 24 anos foi para a Rússia, onde se tornou um bem sucedido dono de restaurante.

Também por razões políticas, Yasser deixou o país nos anos 90, indo primeiramente para a Alemanha e depois para os Estados Unidos. Voltou em meados de 2011 e realizou o sonho de construir o complexo esportivo que naquela ocasião, abrigou Tim. Quando foi inaugurado, Yasser reuniu todos os membros daquela equipe. "Foi o dia mais feliz da minha vida. Foi como se tivéssemos nascido de novo. Mas não durou muito porque aí veio o mal da guerra. Nós todos fomos em direções diferentes. Eu não consigo pensar em nada quando me lembro daquilo. Apenas choro".

Na reportagem de Tim, há outros relatos, como o de Najjar, "o homem-perfume", que se tornou prefeito de Marea, ainda que os rebeldes não o reconheçam como tal; e o de Al Farouh, que dá aulas de futebol para crianças sírias na Turquia. Yasser, atualmente, está na Turquia, e ajuda jornalistas que pretendem cobrir a guerra na Siria. Todos os jogadores daquela foto estão vivos. Mas provavelmente, jamais estarão unidos novamente. 

Imagem: BBC News

Nenhum comentário

Deixe seu comentário:

Tecnologia do Blogger.