A relação entre Santa Cruz e Famalicão


Por Leandro Paulo Bernardo, leitor do Escrevendo Futebol

No último dia 12 de dezembro, um grande zagueiro do Santa Cruz e do Famalicão de Portugal completou 49 anos de idade. Trata-se do xerife Tanta. Talvez os mais novos possam não entender a importância dele ou a analogia entre o clube coral da Veneza brasileira com os azuis da Vila Nova de Famalicão, porém a semelhança entre decadência e ressurreição marcam esses clubes.

O clube pernambucano foi formado primeiro, em fevereiro de 1914, por alguns amigos que jogavam futebol no pátio da Igreja de Santa Cruz no bairro da Boa Vista. O clube Português também foi fundado por um grupo de amigos em agosto de 1931 e, desde a data da sua fundação, tem sido o principal embaixador desportivo da cidade de Vila Nova de Famalicão. Apenas na temporada 1932/33 o Famalicão inicia a sua participação em competições oficiais organizadas pela Associação de Futebol de Braga. O clube irá tornar-se, rapidamente, numa das principais equipes de futebol da região, juntamente com o Vitoria SC, com o SC Braga. Seu estádio na época era denominado Campo de Berberia e foi inaugurado em 1932 num amistoso contra o Porto.

Em outubro de 1934, a Seleção Brasileira, procedente da Copa do Mundo disputada na Itália, desembarcou no Recife para uma série de amistosos, e os resultados obtidos foram: Brasil 5x4 Sport, Brasil 3x2 Santa Cruz, Brasil 8x3 Náutico. Entretanto, um atraso do navio da Seleção fez com que o Tricolor pedisse uma revanche, e desta vez, com vitória coral por 3 a 2.  Com esta vitória, o Santa Cruz foi o primeiro time do Brasil a conseguir derrotar a Seleção Brasileira. 

O grande crescimento desportivo do FC Famalicão começa, verdadeiramente, no início da década de 40, sobretudo com a chegada ao clube do húngaro Janos Szabo. Com 27 anos, o atleta foi contratado para jogar e ser treinador ao mesmo tempo, com um alto salário para a época; dez contos mensais (atualmente 50 euros). Ele se tornou um grande personagem da historia famalicense através das várias passagens pelo clube.


Em 1940/41 o clube participou pela primeira vez no Campeonato Nacional da 2ª Divisão, classificando-se em 3º lugar no regional do Minho. Enquanto isso, em 1943, o dirigente do Santa Cruz Aristófanes de Andrade conseguiu alugar um terreno próximo às ruas Beberibe e das Moças, onde muitos anos depois seria instalado o Estádio José do Rego Maciel, o Arruda. Na década de 1940, a equipe pernambucana levantou três títulos (1940, 1946 e 1947), antes de passar dez anos em jejum. O Famalicão começou a garantir projeção nacional na temporada 1945/46, após triunfar sobre o Boavista por 3 a 2, alcançando o 2º lugar, e com isso a histórica subida à 1ª Divisão Nacional. Ao longo dessa competição, o time marcou 82 gols e sofreu apenas cinco. 


Foi assim o segundo clube da região minhota que conseguiria chegar na elite do futebol português, depois do Vitória de Guimarães ter conseguido tal proeza a partir da temporada de 1941/42. A rápida passagem do Famalicão pela 1ª Divisão Nacional na temporada 1946/47 terminou com o clube na penúltima colocação e novamente indo para a segunda divisão. Em 21 de Setembro de 1952, o Famalicão inaugurou seu novo estádio, o Campo dos Bargos (rebatizado depois de Estádio Municipal 22 de Junho ). Passou anos longe da elite, alternando-se entre a segunda e a terceira divisão, e novamente contando em seus bons tempos de segunda divisão com o treinador húngaro Janos Szabo na década de 60.

Em maio de 1978 conquistou o título de campeão da 2ª Divisão Nacional, terminando a fase final à frente do FC Barreirense e do SC Beira Mar. Disputou a primeira divisão novamente por uma temporada apenas. Nessa década o Santa Cruz vivenciava sua epopéia nacional, inaugurou o “mundão do Arruda” em 1972, foi semifinalista do campeonato Brasileiro em 1975 e seu centroavante Nunes só não foi convocado para o mundial da Argentina em 1978 devido a uma contusão.

O regresso do Famalicão à 1ª Divisão esteve bem próximo no final da temporada 1987/88, altura em que o clube era comandado pelo treinador português Rodolfo Reis, venceu a fase regional e sagrou-se campeão nacional numa fase final disputada com o Académico de Viseu e CF Estrela da Amadora, que havia conseguido o empréstimo do jogador Marlon junto ao Sporting, após uma brilhante passagem pelo Santa Cruz e “aberto o mercado” português para o clube coral. O santinha vivia um bom período, sendo bi campeão pernambucano em 1986 e 1987, participou por dois anos seguidos da primeira divisão e com a primeira escalação que gravei na memoria; Birigui, Orlando, Lula, Ivan, Lotti, Zé do Carmo, Ataide, Sergio China, Marlon, Dadinho e Gilson Gênio, todos sob o comando do jovem treinador Abel Braga.

Todavia, um caso de corrupção conduziu o clube português à 3ª Divisão Nacional. O Famalicão foi punido disciplinarmente, perdendo até o título de campeão da 2ª divisão nacional. Nessa época dois grandes ídolos do Santa Cruz haviam sido negociados para o Famalicão, Birigui e Lula, juntamente com o jovem Augusto, atacante do Sport, que no momento era titular do clube na Libertadores e após quase marcar um gol de Bicicleta contra o Guarani de Neto em pleno Brinco de Ouro, foi adquirido por 18 milhões de cruzados.

Com uma equipa preparada para a 1ª Divisão, o FC Famalicão disputou o terceiro escalão do futebol português, contando com o futuro ídolo nacional Fernando Couto atuando por empréstimo cedido pelo Porto. A direção liberou os brasileiros, que foram emprestados ao arquirrival Sport Recife, situação que abalou um pouco a relação entre os clubes e incomodou profundamente o arqueiro Birigui. No primeiro clássico que o goleiro reencontraria a torcida coral, essa o recebeu cantando; "Ô, Ô, Ô, Birigui é tricolor!". 

O clube português terminou a competição em segundo lugar, atrás do Mirense e garantiu o retorno para a segundona na edição de 1989/90 com um forte planejamento e investimento na equipe de futebol. O treinador Abel Braga havia sido demitido do Internacional, após a eliminação nas semifinais da libertadores de 1989 para o Olimpia do sensacional Amarilla (no famoso jogo “Juca White Fibe”), e como já havia treinado o Rio Ave antes do Santa Cruz em 1986, aceitou o desafio. Regressou para Portugal e solicitou o retorno de Lula, Birigui e a contratação de Leomir que era comandado por Abelão no Inter.

O Santa Cruz a partir de 1989 perdia forças no cenário nacional, disputou uma série B regional junto com CRB, CSA, Capelense, América de Recife e Central. Não foi bem, mas para o ano seguinte disputou o Pernambucano com um time valente, raçudo e empolgante. Na baliza alternavam-se os arqueiros Banana e Raul, a zaga contava com Marinaldo e Marcão e o ataque contava com o talento de Mazinho Loyola, adquirido por empréstimo ao São Paulo e que cinco anos depois seria comandado por Abelão no Inter.


Porém o grande jogador daquele Pernambuco era outro zagueiro, Tanta, que por muito tempo esperou uma oportunidade sendo reserva de Ivan, Lula e até de Gonçalves (futuro ídolo do Botafogo). Tanta (Evandro Fróes) era baiano de Feira de Santana, foi revelado pelo Fuminense de Feira e chegou ao Arruda em 1988. Fez um campeonato pernambucano de 1990 tão estupendo que após uma vitória contra o Sport, em que marcou um gol de cabeça, foi carregado pela torcida que invadiu o campo.


Em Julho de 1990 (após o Pernambucano) foi vendido ao Famalicão por 100 mil dólares, transação que envolveu na aquisição do passe de dois jogadores para o Arruda, o eterno ídolo tricolor Birigui e o atacante Augusto, o mesmo que havia defendido o Sport.


Era um investimento alto para o clube minhoto, que também teve que vender o zagueiro Toninho Carlos para o Atlético Mineiro e tentar reequilibrar as finanças. O trio de zaga composto por Tanta, Ben-Hur e Lula passou a intimidar todos os adversários que iriam jogar contra os azuis, sendo batizada de “Muro de Berlim”. No ataque sobressaía-se a qualidade técnica do meia-atacante Cacioli e o lendário trio de ataque dos três F's (feios, fortes e famalicenses); Medane, Zim e Barnjak.


Em 1990/91, 1991/92 e 1992/93, o FC Famalicão repetiu sempre o 14º lugar na classificação final, que permitiu assegurar a manutenção, afinal, o grande objetivo do Famalicão. Em 1991, o Famalicão parecia ambicionar outros objetivos. Para isso, contratou o treinador e chuteira de ouro como jogador do Olympique de Marseille nos anos 70, Josip Skoblar. Era um técnico com muito prestígio internacional, mas que não teve grande sucesso na sua rápida passagem pelo clube, sendo demitido no meio da competição.


Em agosto de 1992, Tanta foi negociado com o Vitória de Guimarães, já havia se naturalizado português e deixou enorme sentimento de gratidão com a torcida, que o chamava de Sansão Brasileiro. Para o seu lugar o clube português veio buscar novamente um zagueiro no Santa Cruz,  o jogador Barbosa. A temporada de 1993/94 seria a ultima época do Famalicão na 1ª Divisão Nacional. A formação famalicense acabou descendo de divisão devido a muitos problemas econômicos e direcionais. A crise de resultados também influenciou decisivamente o destino da equipe do Famalicão. Nem mesmo o regresso do técnico brasileiro Abel Braga ao clube, em substituição do treinador José Piruta, foi capaz de mudar o rumo dos acontecimentos. Pelo 17º lugar na classificação final do Campeonato da 1ª Divisão em 1993/94, o Famalicão foi rebaixado à 2ª Divisão, escalão que disputou, consecutivamente, nas temporadas de 1994/95 e 1995/96.

Nessa época o Santa Cruz montou um bom time, sobre respaldo financeiro de uma multinacional italiana, conseguiu ser campeão estadual em 1995, mas não conseguiu êxito na segunda divisão nacional, mesmo com os gols de Maurício Pantera em 1996, que lhe garantiu uma transferência para o Compostela da Espanha. Em 1997 o clube pernambucano contratou pela última vez um jogador do Famalicão, o zagueiro Edgar, ao qual encerrou um ciclo de negociações entre os clubes.

Após deixar o Famalicão, Tanta jogou quatro temporadas pelos Belenenses e uma pelo Marítimo. Em 1998 encerrou a carreira pelo Santa Cruz. Já era dono do seu passe e na tarde de 16 de janeiro de 1998 acertou seu retorno ao Arruda. Várias lesões encurtaram a carreira do jogador e o impediram de participar do retorno do clube para a elite em 1999.

Enquanto isso a partir da temporada de 1996/97 o Famalicão passou a militar na 2ª Divisão. Em 2000 e 2001 ficou próximo da classificação, à qual não veio e somente agravou o déficit financeiro do clube, que resultou no último lugar da 2ª Divisão na temporada 2001/2002 e o rebaixamento para a 3ª Divisão. Regressou à 2ª Divisão depois do 2º lugar obtido, atrás do Aliados de Lordelo, no final da temporada de 2004/05. Permaneceu durante dois anos naquele escalão até ser novamente rebaixado para a 3ª Divisão Nacional. A pior situação ocorreu ao final da temporada de 2007/08 quando o clube passou a disputar às competições distritais da Asssociacao de futebol de Braga (o equivalente à Quarta divisão no Brasil), algo que quase levou o clube a decretar falência.

Em 2009 o FC Famalicão regressou à 3ª Divisão Nacional, mesma divisão que o Santa Cruz se encontrava aqui no Brasil. As crises financeiras atormentavam os dois clubes, mas durante os "anos difíceis" as manchetes deles também tinha algo em comum; o amor dos seus torcedores e a boa média de público nos jogos como mandante ( algo raro, se tratando de clube pequeno em Portugal). Uma torcida organizada do clube chegou a se deslocar à ilha da Madeira para ver o seu clube, apesar de nem sequer os clubes grandes terem levado seus claques (ultras) ao caldeirão dos Barreiros. Tanto no estádio do Arruda quanto no Estádio Municipal 22 de Junho sempre houve uma tradição de vender ingressos com preços mais acessíveis. 



A situação ficou ainda pior em 2010, quando o Santa cruz chegou à jogar pela quarta divisão. O Famalicão disputava primeiro uma fase regional, para depois tentar a qualificação para a fase final da terceira divisão. Em 2011 o Santa Cruz saiu da quarta divisão, em 2013 da terceira e finalmente retornou à elite agora em 2015. Em maio de 2015, o Famalicão depois de batalhas, em campo e fora dele contra o Mafra, finalmente deixou a terceirona. Perdeu a decisão do título nos pênaltis, em uma partida marcada por agressões entre torcedores azuis e jogadores do Mafra na chegada do ônibus do clube ao estádio de Marina Grande. Até esse mês de Dezembro, o clube está em sexto colocado na segunda divisão e como sempre lutando pela vaga com muito ímpeto.

4 comentários:

  1. Que belo texto, sou torcedor do Santinha e tinha conhecimento das transferências e de algumas semelhanças, mas não com tanta riqueza de detalhes. Parabéns pelo excepcional trabalho! belas linhas e histórias, que os dois clubes possam cada vez mais recuperar seus bons momentos e tenhamos duas grandes torcidas felizes.

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  2. Parabéns pelo seu texto
    Sou de Famalicão e as suas palavras deixaram uma bela saudade dessa época em miúdo que via jogar esses monstros das 4 linhas Tanta e Lula
    Forte abraço de Famalicão
    Não se admirem ...Isto é Famalicão ..!!!!

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  3. Texto espectacular !
    Não sou de Famalicão nem minhoto, mas gostei do texto.
    Lembro-me desses jogadores.

    João Moreira

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  4. Texto espectacular !
    Não sou de Famalicão nem minhoto, mas gostei do texto.
    Lembro-me desses jogadores.

    João Moreira

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