A exceção em Portugal

Logo mais, às 17:00 do horário de Brasília, Belenense e Boavista se enfrentam no estádio do Restelo tentando afastar a sombra do rebaixamento. Essa tem sido a rotina destes dois clubes nos últimos anos. Chega a ser espantoso imaginar que ambos são as únicas equipes que já quebraram a hegemonia do trio de ferro português. Desde a instituição do campeonato nacional, na temporada 34/35, apenas duas vezes o título saiu das mãos de Benfica, Porto ou Sporting. 

A primeira vez que isso aconteceu foi no longínquo ano de 1946 com o Belenenses, naturalmente. Os Azuis eram considerados um dos grandes em Portugal. Na era pré-liga, chegou a ser o maior vencedor dos Campeonatos de Portugal, que precederam a Taça de Portugal, com 3 conquistas. Além disso, foi até 1935 a equipe com o maior número de convocados para a seleção nacional. Mas o tempo colocou o Belenenses em um limbo entre os gigantes e as equipes médias de pouca aspiração. Bem, vamos voltar à história do título. Como era de se esperar, a taça não veio com facilidade. A disputa com o Benfica foi rodada a rodada. Na 10ª rodada, os encarnados assumiram a liderança, e se mantinham sempre um ponto à frente. Na 18ª rodada, massacrou os rivais do Sporting por 7 a 2, e parecia existir adversários capazes de impedir mais um título benfiquista. Na rodada seguinte, entretanto, o Belenenses venceu o Benfica por 1 a 0, gol de Manuel Andrade, e retomou a liderança pra si. Nas rodadas finais, venceu Porto, Olhanense e Elvas, e com um ponto de vantagem para o Benfica, ficou com o título. O ataque da equipe era consistente, com destaque para Manuel Andrade e Armando Correia, mas o grande trunfo estava na defesa. Foram apenas 24 gols sofridos em 22 partidas. O técnico do time era Augusto Silva, ídolo do clube também como jogador. 


Muitos anos depois, o feito improvável se repetiu. E diferente do que se costuma pensar, o Boavista não foi apenas um meteoro. A equipe axadrezada é até hoje o 4º clube com mais títulos oficiais de futebol no país. O Boavista teve dois grandes momentos na história. Os anos 70, em que conquistaram duas vezes a Taça de Portugal e nos anos 90, quando repetiram o feito, levando mais dois títulos para casa, um deles, com jogadores do nível de Erwin Sánchez, Hasselbaink e Nuno Gomes. O sucesso gerou uma debandada, mas obviamente trouxe dinheiro, muito bem investido em estrutura, que logo renderiam os frutos esperados. Na temporada 2000/2001, com uma base sólida formada pelo técnico Jaime Pacheco, o Boavista enfim pôde lutar pelo título. A defesa era um ponto forte, com Ricardo no gol, Pedro Emanuel na zaga, com Petit e Rui Bento como volantes. No setor ofensivo, Erwin Sánchez, que voltou após passagem pelo Benfica, servia o trio de ataque formado por Duda, Elpídio Silva e Martelinho, o talismã daquela campanha. E tal qual o Belenenses, ficou com o título por apenas um ponto de vantagem sobre o segundo colocado, o Porto. Entretanto, muitas suspeitas foram levantadas em relação à arbitragem, que para muitos, se confirmou anos depois. Mal financeiramente, o clube recebeu um duro golpe ao ser rebaixado para a segunda divisão em 2007/08, após a condenação de Valentim Loureiro, presidente do clube e da Liga, no escândalo do Apito Dourado. Em campo, o Boavista ainda caiu para a terceirona em 2008/09. Em 2014, foi alavancado para a elite após vencer o recurso da antiga decisão na justiça. 


As duas conquistas ficam cada vez mais distantes de se repetir, tendo em vista o panorama atual do futebol português em geral. A disparidade financeira é tão grande, que até mesmo para o Sporting fica difícil fazer uma graça. Um intruso na liga portuguesa? Talvez só com um novo apito dourado. 

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