Máfia do Apito: dez anos do caso que abalou o futebol brasileiro


O Campeonato Brasileiro de 2005 tinha tudo pra ser um dos melhores campeonatos da história do futebol brasileiro. Enquanto nossa Seleção e nossos jogadores na Europa estavam em alta, dentro do país, os clubes tinham reforços de peso e grandes revelações provenientes de suas categorias de base. E a competição ia muito bem até o mês de setembro, quando uma bombástica capa da revista Veja, a publicação semanal de maior circulação no país, escancarou um esquema de manipulação de resultados. No meio do turbilhão, um dos melhores árbitros do país, Edílson Pereira de Carvalho. O que aconteceu dali em diante se tornou em uma das maiores manchas do futebol nacional em toda a história.

Em 23 de setembro de 2005, a Veja estampava em sua capa a foto de Edilson e a chamada que deu nome ao caso: A Máfia do Apito. Na manhã do dia seguinte, o árbitro era preso em sua casa em Jacareí, interior de São Paulo. Na capital paulista, Nagib Fayad, o Gibão, também era levado pela polícia. De acordo com as investigações, Gibão era viciado em apostas (ou ao menos alegou ser) e já havia perdido muito dinheiro. O principal site utilizado era o Aebet. Para recuperar as perdas, decidiu recrutar árbitros no intuito de manipular os resultados. Para isso, ofereceu entre R$ 10 a 15 mil reais por jogo para que Edilson e Paulo José Danelon, outro árbitro envolvido no esquema, fizessem o trabalho sujo. Aliás, foi Danelon que apresentou Gibão a Edilson. Danelon morava em Piracicaba, mesma cidade do empresário. Os árbitros atuaram naquele ano em jogos do Campeonato Paulista, do Brasileirão das séries A e B e da Libertadores da América. Edilson estava cheio de dívidas, e viu na oferta de Gibão a chance para arrecadar um dinheiro fácil. A investigação identificou 40 partidas que podem ter sido fraudadas.

A carreira de Edilson Pereira de Carvalho como árbitro começou em 1991. Três anos depois, apitava sua primeira partida pelo Campeonato Paulista. Mas Edilson não havia completado o ensino médio, e esse era um dos requisitos básicos para entrar no quadro de arbitragem da Federação Paulista. Como ele conseguiu? Falsificou o diploma, e o entregou à FPF. Em 2003, a situação foi descoberta, mas a federação fez pouco caso e Edilson continuou a apitar. Ele fazia parte do quadro de árbitros FIFA desde 2001.


Nagib Fayad, o mentor do grupo
E como foi descoberto o esquema? De acordo com a repórter da Veja, Thais Oyama, em entrevista recente para a ESPN, ela recebeu uma ligação anônima que indicava o que vinha sendo feito no futebol brasileiro. Thais recrutou  o repórter André Rizek para a empreitada. Ambos levaram o caso para o Ministério Público e para a Polícia Federal. Enquanto isso, André Rizek e Thais seguiam a apuração. A fonte da Veja indicava. "Tem jogo do Botafogo hoje, né? Tá vendido, jogaram na vitória do Botafogo". André ia ao estádio e conferia ele mesmo. Nesse jogo, por exemplo, o Fogão venceu o Vasco por 1 a 0 em um pênalti duvidoso marcado por Edilson. E assim foi o início das escutas telefônicas que comprovaram a ligação entre o empresário Nagib Fayad e os árbitros Edilson e Danelon, a partir do dia 2 de agosto.


Danelon, um dos principais acusados
Ainda durante a apuração, André marcou uma entrevista com Edilson, alegando estar fazendo uma reportagem especial sobre arbitragem. E descobriu mais uma das artimanhas de Edilson. O juiz se dizia técnico de telefonia da prefeitura de Jacareí. Logo confessou que era apenas para enganar a Federação Paulista, e que ele comprava o comprovante que mantinha a farsa. Em seu livro, Cartão Vermelho, Edilson conta uma passagem curiosa. André Rizek, para demonstrar credibilidade, disse que também estava entrevistando a bandeirinha Ana Paula de Oliveira. A auxiliar atuou com Edilson no jogo São Paulo x Corinthians, do dia 7 de setembro. O árbitro perguntou para Ana se André tinha entrado em contato com ela. Apesar da resposta negativa da auxiliar, Edilson não desconfiou de nada.

Um mês e meio depois do início das gravações telefônicas, no dia 23 de setembro, a Veja apresentou um dos maiores esquemas de manipulação de resultados da história do futebol brasileiro. Dois dias depois de revelado o escândalo, Luis Zveiter, então presidente do Superior Tribuna de Justiça Desportiva, declara que os jogos suspeitos poderiam ser anulados e que as partidas seriam analisadas individualmente. No dia 26 de setembro, de acordo com o jornal Folha de São Paulo, Edilson afirmou em depoimento que mais árbitros estariam envolvidos no esquema. No dia 30, o empresário Wanderlei Pololi é preso acusado de ser um dos intermediários do esquema. No mesmo dia, Armando Marques deixa a presidência da Comissão Nacional de Arbitragem.

No dia 2 de outubro, domingo, Zveiter anuncia a anulação dos 11 jogos apitados por Edilson no Brasileiro da série A de 2005, e novas datas seriam definidas para a repetição dessas partidas. Na mesma hora, Internacional, Santos, Cruzeiro, Ponte Preta e Figueirense, decidem pedir um recurso para a revisão da decisão, afirmando que cada jogo deveria ser investigado individualmente. O recurso foi rejeitado por Zveiter. A argumentação de Zveiter era de que todos os jogos apitados por Edilson, com interferência clara ou não, já estavam contaminados. Faz sentido. Entretanto, o mesmo critério não foi aplicado a nenhum jogo do Campeonato Paulista, nem da série B do Brasileirão, onde Danelon havia apitado quatro jogos. Se os jogos da Segundona fossem anulados, o Vitória poderia ter sido salvo do rebaixamento à série C e o Vila Nova poderia entrar na zona de classificação para a segunda fase.

Em um dos jogos repetidos, uma verdadeira confusão foi deflagrada. O Santos havia vencido o Corinthians por 4 a 2, na Vila Belmiro, em grande atuação do meia Giovanni. No replay, o Timão venceu por 3 a 2 com um gol de pênalti marcado pelo árbitro Cleber Wellington Abade. A revolta tomou conta da torcida, que tentou invadir o gramado. Ao término dos 11 jogos, o Corinthians foi o principal beneficiado, que com os 4 pontos ganhos na repetição dos confrontos, passou a liderar a competição. Abaixo, os jogos anulados e o resultado das repetições:


Reprodução Wikipedia
Sob o comando de Márcio Bittencourt, o Corinthians parecia que não ia largar mais a ponta. Mas a direção corintiana demitiu o treinador novato e contratou o experiente Antônio Lopes. Agora cambaleante, o antes imbatível Corinthians viu o Internacional de Muricy Ramalho subir de produção, e encostar na classificação. Na 40ª rodada (aquele ano eram 42 rodadas), Corinthians e Internacional se enfrentariam no Pacaembu. Era a "decisão" do título. Quem vencesse dava um passo importante em busca da taça. O clube paulista estava recheado de reforços estelares, graças a parceria com a MSI, uma empresa de investimentos comandada pelo iraniano Kia Joorabchian, ligado ao milionário russo Boris Berezovsky. O Corinthians abriu o placar com Tevez, a estrela maior da companhia, aos 37 do 1º tempo. No início do segundo tempo, Rafael Sóbis empatou a peleia. Aos 28, Fernandão deixa Tinga de frente para o gol, mas o volante colorado é derrubado por Fábio Costa. O árbitro Márcio Rezende de Freitas (o mesmo que havia feito uma arbitragem desastrosa 10 anos antes em uma final de Brasileirão e teve seu nome ligado ao Caso Ivens Mendes), marcava simulação de Tinga, aplicava o segundo cartão amarelo, e expulsava o jogador. Duas rodadas depois, o Corinthians levantava o troféu de campeão brasileiro.


Márcio Rezende de Freitas, Fabio Costa e Tinga: o final melancólico do Brasileirão 2005
Voltando a questão do esquema de manipulação de resultados, que máfia é essa formada por apenas três pessoas? De acordo com uma entrevista de Protógenes Queiroz, o delegado responsável pelo caso, para a revista Piauí, havia indícios de participação de jogadores, técnicos e dirigentes, mas que a publicação da reportagem pela Veja prejudicou as investigações. A reportagem foi antecipada devido a um suposto vazamento da informação para outro veículo. Em entrevista recente, Protógenes citou os nomes de Márcio Braga, ex-dirigente do Flamengo, Eduardo Vianna, o já falecido Caixa D'Água, ex-presidente da Federação Carioca e Eurico Miranda, presidente do Vasco.

Por falar em envolvimento de dirigentes, Alberto Dualib, presidente do Corinthians que já havia tido envolvimento em um caso similar (caso Ivens Mendes), aparece dois anos depois em uma ligação telefônica interceptada pela Polícia Federal e divulgada pela TV Record, em conversa com Renato Duprat, dirigente do clube. "Se não tivesse aquela merda da anulação de 11 jogos, nós estaríamos fora, porque o campeão de fato e de direito seria o Internacional". Dualib também fez referência ao polêmico jogo entre Corinthians e Internacional. ''Porque os últimos cinco jogos, nós tínhamos 14 pontos na frente, e chegamos com um ponto só... roubado". A gravação foi realizada durante investigação da PF e do MP sobre lavagem de dinheiro no Corinthians e a suspeita parceria com a MSI.

Em março de 2013, a justiça definiu os únicos punidos pela Máfia do Apito. A CBF foi condenada a pagar uma multa de R$ 20 milhões de reais, enquanto a FPF teve de desembolsar R$ 4 milhões. Edilson Pereira de Carvalho, José Paulo Danelon e Gibão, não cumpriram pena de reclusão. O processo em que eram acusados de estelionato foi suspenso pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, que avaliou que não foi cometido crime algum. O crime de fraude esportiva foi tipificado apenas a partir de 2010, com a inclusão de um artigo específico no Estatuto do Torcedor. Gibão, por exemplo, afirma que realiza apostas até hoje. "Quando sobra dinheiro, acabo jogando. Sabe quantos sites (de aposta) existem no Brasil? Mais de dez, quinze. Não sou só eu, são milhares de pessoas", disse em recente entrevista ao Globoesporte.com. Hoje, Edilson vive com a mãe, após ter se separado de sua esposa. Em 2006, lançou o livro citado anteriormente, Cartão Vermelho, em que conta a sua versão dos fatos. Sem emprego, se vira com a aposentadoria recebida pela mãe. Se a justiça talvez não tenha cumprido seu papel, a consciência de Edilson o faz diariamente, ao olhar na parede as fotos da época de arbitragem.

Imagens: 1. e 3. Veja / 2. Oslaim Brito/Diario de S. Paulo / 4. ClicRBS

Esta reportagem faz parte da série especial Corrupção - o mal por trás do espetáculo

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