Apito Dourado


Em Portugal, assim como em muitos outros lugares, há uma tradição de presentear os árbitros com produtos típicos. O ex-árbitro Jorge Coroado relata divertidas histórias em seu livro, Cartão Vermelho, sobre esses presentes. Em Gondomar, região de renomados ourives, o clube local costumava presentear com pequenos mimos dourados. Em meados dos anos 80, passaram a dar aos árbitros pequenos apitos de ouro, de 0,8 gramas. Em 2004, o apito passou a ser o símbolo de um caso de corrupção que se descobriu inicialmente no Gondomar Sport Clube. Escutas telefônicas demonstraram posteriormente um escândalo ainda maior, que envolvia duas das cinco equipes que já se sagraram campeãs da elite portuguesa: o gigante Porto e o surpreendente Boavista, na figura de seus presidentes Pinto da Costa e João Loureiro, e do presidente da Liga e dirigente do Boavista, Valentim Loureiro, um dos primeiros a serem presos. Para se ter ideia do tamanho do caso, o jornal Correio da Manhã, publicou no dia 2 de setembro de 2005, uma lista com 171 acusados de envolvimento, entre dirigentes de clubes, da Liga, da Federação Portuguesa e árbitros. Um dos agrados direcionados à arbitragem era o que os dirigentes chamavam de "frutas" nas gravações. O código se referia à garotas de programa, contratadas especialmente para alcançar os objetivos escusos dos dirigentes.

Em 2006, Carolina Salgado, ex-mulher de Jorge Pinto da Costa, lançou uma autobiografia em que denunciava algumas das atitudes do presidente portista, como tráfico de influências, agressões a dirigentes desportivos, coação sobre equipes de arbitragem, assim como o pagamento de orgias para os árbitros que aceitavam entrar no jogo de Pinto da Costa. Em maio de 2008, a punição foi dada. Mas não a quem realmente cometeu algum crime. Os punidos foram os milhares de torcedores de Porto, Boavista e União Leiria. O Porto perdeu seis pontos e pagou uma multa de 150 mil euros. Para Pinto da Costa sobrou apenas uma sanção no âmbito esportivo. O União Leiria, já rebaixado naquela edição do campeonato português, perdeu 3 pontos e teve de pagar uma multa de 40 mil euros. Já o Boavista foi rebaixado à segunda divisão e condenado a pagar 180 mil euros de multa. Na esfera criminal, Valentim Loureiro e outros homens da Comissão de Arbitragem receberam condenações, mas através de recursos sempre conseguiram se livrar de uma decisão final. Atualmente, Pinto da Costa continua sendo o homem mais poderoso do futebol de Portugal e José Loureiro voltou a ser eleito presidente do Boavista! Não só isso. Conseguiu retornar o clube para a 1ª divisão e ainda reduziu a dívida do clube graças a um acordo e um pedido de indenização. Mais uma vez, quem mais perdeu foi o torcedor português.

Imagem: Record.pt

Esta reportagem faz parte da série especial Corrupção - o mal por trás do espetáculo

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