Migué, Joaquim Prado e Carregal: os primeiros negros no futebol brasileiro


Após a chegada do futebol no Brasil, logo os primeiros clubes para a prática do esporte começaram a surgir. Mas no início, esses clubes eram excludentes e elitizados, e a popularização do futebol foi crescendo aos poucos. Negros no futebol, então, só foram se firmar a partir da década de 20, após a campanha vitoriosa do Vasco da Gama no campeonato carioca de 1923. Mas antes disso, esporadicamente, alguns homens de pele negra foram os pioneiros em desafiar a política vigente. Especialmente três deles, considerados os primeiros negros a atuarem no futebol brasileiro: Migué do Carmo, Francisco Carregal e Joaquim Prado. Pesquisadores divergem em relação a qual deles poderia ser considerado o primeiro. Em respeito à história e a contribuição de ambos ao futebol, contamos suas histórias juntas!

Miguel do Carmo: fundador e atleta da Ponte Preta

São poucos os registros sobre a vida de Jorge Araújo Miguel do Carmo, ou apenas Migué, como costumava ser chamado. Nascido no dia 10 de abril de 1885, três anos antes da abolição da escravatura, Migué não foi apenas um jogador de futebol, mas foi um dos fundadores da tradicional Associação Atlética Ponte Preta. Em 1900, assinou a ata de fundação do clube, e atuou em partidas desde aquele ano, além de ter atuado como tesoureiro. Outros homens negros, ainda não identificados pelos pesquisadores, também fizeram parte das equipes formadas pela Macaca no início daquele século. 

Migué atuou com a camisa da Ponte até meados de 1904, quando foi transferido para Jundiaí, pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro, empresa para qual trabalhava como fiscal de linha. Morreu em 1932, com apenas 47 anos, por complicações após uma cirurgia no estômago. De acordo com o historiador do clube José Moraes dos Santos Neto, além de Migué, haviam outros três negros e dois mulatos como fundadores do clube. No dia 10 de agosto de 2014, em comemoração aos 114 anos da Ponte Preta, o filho de Migué, Geraldo do Carmo, recebeu o título de cidadão pontepretano em nome do pai.


Joaquim Prado, negro e aristocrata

De Joaquim Prado, os vestígios são ainda mais escassos. Sua existência, aliás, poderia até ser contestada, afinal, a única citação mais esclarecida sobre o jogador aparece no livro "O negro no futebol brasileiro", do jornalista Mario Filho, que dá nome ao Maracanã. Na publicação, lançada em 1947, Mário Filho afirma que Joaquim Prado era o extrema-esquerdo do Paulistano, tradicional clube da cidade de São Paulo. "Joaquim Prado era preto, mas era de família ilustre, rico, vivia nas melhores rodas"

No livro "Do fundo do baú", de Laércio Becker, Joaquim aparece na ficha técnica do jogo Paulistano 1x1 São Paulo Athletic Club, de 19 de junho de 1904. No ano seguinte, o Paulistano foi campeão paulista, e Joaquim atuou pelo menos em uma partida, na vitória do Paulistano por 3 a 0 sobre o Mackenzie, no dia 13 de maio. Ou seja, é provável que Joaquim Prado tenha sido o primeiro negro campeão estadual.

Francisco Carregal, negro e proletário

O Bangu possui uma bela história de contribuição ao futebol brasileiro, quando se trata sobre a popularização do esporte. De origem proletária, afinal, o clube era formado por trabalhadores da fábrica têxtil de mesmo nome, o Bangu também foi um dos pioneiros da democratização racial do futebol. Por muitos anos, Francisco Carregal foi considerado o primeiro negro do futebol brasileiro. Entretanto, os feitos de Migué e Joaquim não diminuem em nada a história de Carregal, afinal, ele foi o primeiro operário negro a jogar futebol por uma equipe. O tecelão da Fábrica Bangu, filho de mãe brasileira negra e pai português branco, foi escalado para um jogo contra o Fluminense, no dia 14 de maio de 1905 (portanto, um dia após ao jogo em que Joaquim atuou contra o Mackenzie, por exemplo). O Bangu saiu vitorioso pelo placar de 5 a 3.

Aliás, Carregal era o único brasileiro daquele time, que contava com cinco ingleses, (Frederick Jacques, John Stark, William Hellowell, William Procter e James Hartley), três italianos (Cesar Bochialini, Dante Delocco e Segundo Maffeu) e dois portugueses (Francisco de Barros e Justino Fortes).

José Villas Boas (presidente interino), Frederich Jacques e João Ferrer (presidente honorário); fila do meio: César Bochialini, Francisco de Barros, John Stark, Dante Delocco e Justino Fortes; fila da frente: Segundo Maffeu, Thomas Hellowell, Francisco Carregal (com a bola), William Procter e James Hartley. Acervo Carlos Molinari - Bangu.net

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