Ken Aston, o árbitro que mudou o futebol


No ano de 2015, no Campeonato Brasileiro, conhecemos a banalização do cartão no futebol. Comemorou efusivamente? Cartão! Reclamou com o árbitro? Cartão! Pensou em fazer uma falta? Cartão! Os árbitros de futebol brasileiros, respaldados pela CBF, perderam a mão no uso da mais importante ferramenta de trabalho dos "homens de preto", que nem de preto se vestem mais. Será que Ken Aston, o criador dos cartões amarelo e vermelho, estaria satisfeito com a maneira com que é conduzida uma partida de futebol no Brasil? É provável que não. Principalmente pela mente visionária que tinha diante do futebol. 

Kenneth George Aston nasceu no dia 1º de setembro de 1915, em Colchester, e caso ainda estivesse vivo, teria completado 100 anos no início do mês. Aston começou a atuar como árbitro em 1935, ministrando aulas de futebol a garotos, e após a Segunda Guerra Mundial, se tornou um juiz profissional. Esteve a frente de seu tempo, e não apenas fazia seu trabalho em campo como pensava sua profissão. Foi graças a ele que se padronizou o uniforme na cor preta com as golas e mangas brancas, utilizado por longos anos pelos donos do apito. Em 47, durante uma partida em Londres, Aston não conseguia ver direito as sinalizações de seus árbitros auxiliares, por conta da forte neblina. Foi então, que teve a simples ideia de fazer uma bandeira com cores vivas e facilmente identificáveis, como o vermelho e amarelo. A partir daí, a bandeirinha colorida logo se popularizou.

Suas atuações e ideias chamavam a atenção, e naturalmente, se tornou um dos principais juízes de futebol da Inglaterra. Foi o árbitro do segundo jogo da final do primeira Copa Intercontinental, entre Real Madrid e Peñarol, em 1960. Em 62, na Copa do Mundo do Chile, teve uma grande prova de fogo. Os donos da casa enfrentariam a Itália, e o clima pré-jogo era péssimo, com acusações de jornalistas de ambas as partes. Com a bola rolando, as cenas lamentáveis tomaram conta, e Aston precisou expulsar dois italianos: Giorgio Ferrini e Mario David. Porém, deixou impune o chileno Leonel Sánchez que quebrou o nariz do ítalo-argentino Humberto Maschio, com uma forte cotovelada. Posteriormente, Sánchez foi punido com base nas imagens de vídeo, a primeira punição da história utilizando uma filmagem do jogo. Estranhamente, apesar da decisão, o jogador seguiu jogando normalmente a competição.


Como se sabe, as advertências e punições eram dadas verbalmente pelos árbitros. E volta e meia aconteciam problemas, principalmente se jogador e juiz não falassem a mesma língua. Como na Copa de 66, no jogo entre Inglaterra e Argentina. O argentino Rattín foi expulso pelo alemão Kreitlin, que fazia uma arbitragem, digamos, tendenciosa aos ingleses. Sem uma comunicação adequada entre os dois, Rattín levou cerca de 10 minutos para deixar o campo. Mal sabia o alemão o que seu país esperava na final. Mas isso é papo para outro dia. Além disso, o juiz teria advertido Bobby e Jack Charlton, fato desconhecido pela Football Association. Aston já trabalhava para a FIFA a convite de Stanley Rous, e ao parar em um semáforo na Kensington High Street, teve um insight: "A luz ficou vermelha e eu pensei: 'amarelo, pegue leve; vermelho, pare! Você tá fora!'"

Mas a invenção que mudou o futebol foi usada pela primeira vez apenas na Copa de 1970, no México, no jogo entre os anfitriões a União Soviética. O alemão Kurt Tschenscher aplicou o amarelo ao soviético Lovchev, aos 31 minutos de jogo, após entrada dura em Valdívia. O vermelho também foi instituído a partir de 70, mas em Copas, só foi mostrado 4 anos depois, para o chileno Carlos Caszely, pelo árbitro turco Dogan Babacan, no primeiro jogo daquela Copa, contra a dona da casa, Alemanha Ocidental.

A partir daí, o trabalho de Aston nos bastidores passou a ser ainda mais presente, contribuindo com a FIFA e ministrando diversos cursos pelo mundo. "O jogo deve ser uma peça de teatro em dois atos, com 22 jogadores no palco e o árbitro como diretor. Não há roteiro, enredo, ninguém sabe o final, mas a ideia é proporcionar diversão". Em 23 de outubro de 2001, o árbitro soou o apito final. Mas Aston é homenageado, mesmo que inconscientemente, a cada cartão aplicado. Seja ele aplicado corretamente ou não.

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