Perdedores com sorte


Há um artigo na RSSSF, a bíblia, que conta a história dos Lucky Losers, em tradução livre, perdedores com sorte. Aquelas equipes que foram repescadas por uma ação conjunta entre destino e regulamentos bizarros, e acabaram alcançando voos mais altos que o esperado. Abaixo, contamos as principais histórias envolvendo esse fenômeno, que daria inveja aos criadores da Copa João Havelange.

Na Copa da holanda de 1970, o Ajax foi derrotado pelo AZ na 3ª fase da competição eliminatória, composta por 14 equipes. Para a definição das quartas-de-final, ocorreu um sorteio entre os derrotados na fase anterior. O Ajax foi o premiado, e na sequência, eliminou o DWS, o Twente, e na final, derrotou o rival PSV por 2 a 0, gols de Keizer e Cruyff, sagrando-se campeão do torneio. No ano seguinte a KNVB Cup foi reformulada.

Caso parecido aconteceu na Copa da China de 90. O 1º de Agosto, clube atualmente extinto, foi eliminado na segunda fase, composta por 6 equipes, pelo Beijing. Para a definição das semifinais, além dos três classificados, foi decidido que o perdedor de melhor campanha até então, também teria a oportunidade de disputar uma vaga na final. O clube não apenas passou pelas semifinais e levou o título, como ainda o fez sem precisar vencer mais nenhum jogo, eliminando o Shandong (nas semis) e o Dalian (na final), na disputa de pênaltis.

Em 2002, na copa nacional de Benin, a regra era similar ao do torneio chinês. Em uma das fases finais, restavam apenas 6 equipes, e uma delas passaria para as semifinais mesmo sendo derrotado. O pequeno Pobé, então da segunda divisão local, foi eliminado pelo Réquins de l'Atlantique nos pênaltis. Nas semifinais, teve a chance da revanche, e também nos pênaltis, devolveu a derrota. Na grande final, após 2 empates, o Pobé derrotou nos pênaltis o Mogas 90. Como se não bastasse, ainda derrotou o Dragons de l'Ouémé, campeão nacional, na disputa da Supercopa do país. E dessa vez, sem precisar das penalidades. 

Mas o UNB (Université National de Benin) ultrapassou todos os limites. Pela Copa da Independência de 2004, uma competição eliminatória em que apenas clubes da primeira divisão nacional poderiam participar, o UNB foi eliminado pelo Pobé já na 1ª fase. Mas passou para a 2ª fase por sorteio. Contra o ASJA, foi novamente eliminado, mas foi colocado nas semifinais, mais uma vez por sorteio. Nesta fase, venceu o Soleil, e na finalíssima, reencontrou o ASJA, e desta vez, saiu vitorioso.

Pelo Apertura de 2004, o Universidad de Chile se aproveitou desta brecha no regulamento e faturou o título. Na 1ª fase eliminatória, foi derrotado pelo Unión Española. Como 2º melhor derrotado, enfrentou nas quartas-de-final o Universidad de Concepción, e novamente contou com o regulamento esdrúxulo para se classificar. Na primeira partida, La U venceu por 1 a 0, e na volta, foi derrotado pelo Concepción por 2 a 0. Mas o saldo de gols não era um critério de desempate, e na prorrogação, La U marcou o gol de ouro, eliminando o adversário na morte súbita. Na semifinal, eliminou o Santiago Wanderers, que havia passado pelo Unión Española. Na final, após dois empates, levou o troféu de campeão nacional e a vaga na Libertadores do ano seguinte, após vencer o Cobreloa nas penalidades.


No campeonato hondurenho da temporada 97/98, o Motágua foi campeão do Apertura depois de ter sido derrotado na segunda fase pelo Real España, através do critério de gols fora, e de na final ter vencido o mesmo Real España por 5 a 1 no placar agregado. A proeza aconteceu graças ao regulamento, que indicava que o melhor derrotado da segunda fase, se classificaria para as semifinais. No Clausura, o Motágua também foi campeão, desta vez contra o Olímpia, e unificou o título nacional sem precisar de final.

Já na Copa Símon Bolívar de 99 (torneio que definia os promovidos para a elite do futebol boliviano), o Atlético Pompeya alcançou as semifinais pelo mesmo critério, após ser derrotado pelos rivais do Universitario de Beni. Na sequência, eliminou o Litoral de La Paz, e na final, venceu o Mariscal Braun, que havia eliminado o Universitario na fase anterior. 

Na Recopa Europeia, tradicional competição disputada pelos campeões de copas nacionais, nem sempre seguia seu critério inicial, e várias equipes derrotadas no âmbito local, disputaram o torneio. Cinco delas não apenas jogaram, como a venceram. Logo na primeira edição, em 60/61, a Fiorentina levou o troféu depois de ter sido derrotada na Coppa Itália pela Juventus. O fato se repetiu em 71/72 com o Glasgow Rangers, em 77/78 com o Anderlecht, em 80/81 com o Dínamo Tblisi, e por último, em 96/97 com o Barcelona.



Mas o caso mais emblemático é o da Dinamarca, na Euro 92. Nas eliminatórias, pelo grupo 4, a Dinamarca perdeu apenas uma partida, mas ficou atrás da Iugoslávia na classificação geral. Se no futebol o país balcânico ia bem, fora dos campos a guerra civil derrubava a nação unificada. Em maio de 92, a ONU decretou uma série de sanções ao país. Às vésperas da competição disputada na Suécia, a FIFA decidiu por suspender a Iugoslávia de competições oficiais. Desse modo, a UEFA convidou a Dinamarca para disputar o torneio.

Na fase de grupos, a equipe escandinava surpreendeu e deixou para trás Inglaterra e França, e classificou para a fase seguinte em 2º do grupo A, atrás da anfitriã Suécia. Nas semifinais, enfrentou a favorita e atual campeã Holanda, e nos pênaltis, com direito a Schmeichel parando o artilheiro Marco Van Basten, a Dinamarca chegou a uma improvável final. Contra a Alemanha, atual campeã mundial, Jensen e Vilfort marcaram os gols da surpreendente vitória dinamarquesa na decisão da Eurocopa.



Um comentário:

  1. Na Série C de 2003 o RS Futebol Clube (hoje Pedrabranca Futebol Clube), foi eliminado na quarta fase pelo Ituano (3-1, 1-3, 4-3 nos penaltis) e se classificou como o melhor dentre os eliminados.
    Na fase seguinte pegou novamente o Ituano e foi eliminado de novo (1-2, 3-1)...
    Não caberia na reportagem pq não foi campeão, mas é curioso esse tipo de regulamento.

    ResponderExcluir

Deixe seu comentário:

Tecnologia do Blogger.