Todos contra Blatter


Existe alguém capaz de tirar o suíço do comando da FIFA? Descubra nesta reportagem tudo o que você precisa saber sobre a eleição que pode mudar os rumos do futebol

8 de junho de 1998. O suíço Joseph Blatter assumia o cargo que foi ocupado por 24 anos por João Havelange. O dirigente brasileiro revolucionou o futebol mundial, mesmo que por caminhos sinuosos, transformando a Copa do Mundo no maior evento esportivo de todos, e conduzindo a FIFA a se tornar a entidade esportiva mais rentável do planeta. Blatter consolidou as conquistas do antecessor. E só fez o poder da instituição crescer. Já são 17 anos como presidente da FIFA. E nesse período, viu recentemente sua imagem ser desgastada por inúmeras acusações de corrupção. às vésperas da eleição. Blatter é o favorito a vencer, mas nunca teve uma oposição tão representativa e atuante. Serão eles capazes de iniciar uma nova dinastia na entidade máxima do futebol? Conheça a seguir como funciona o processo eleitoral da FIFA e o perfil de cada um dos 4 candidatos.

A eleição

Como qualquer processo democrático, há uma série de pré-requisitos necessários para atingir o alto comando da FIFA, Para efetivar a candidatura, é necessário apresentar o apoio de pelo menos 5 federações. O ex-jogador francês David Ginola e o também francês, e ex-secretário da FIFA, Jerome Champagne, já ficaram pelo caminho por esse motivo. Também é necessário ter atuado ativamente no futebol profissional por pelo menos dois dos últimos cinco anos, como dirigente, árbitro, jogador ou técnico. Não há limite para número de candidaturas. Elas são analisadas por um Comitê Eleitoral (organismo criado recentemente) e pelo Comitê de Ética que aprova a elegibilidade dos candidatos.

Nas eleições, este ano previstas para 29 de maio, cada uma das 209 federações filiadas tem direito a um voto. Para ser eleito ainda no primeiro turno, é preciso ser o escolhido de pelo menos 2/3 das federações. Em caso negativo, os dois melhores colocados disputam um segundo turno, em que aquele que conquistar 50%+1 dos votos, alcança o posto de dirigente máximo do futebol. O vencedor fica no cargo pelos próximos quatro anos, e não há limites para reeleições.

Joseph Blatter



"Volto a concorrer à presidência da FIFA, pois ninguém na UEFA tem coragem"

É óbvio que estar na situação é cômodo. Mas também está na cara de todos, que é uma posição vulnerável às críticas, e às crises que explodem junto delas. E claro, que Blatter luta para gerenciá-las da melhor maneira possível. Mas não é sua imagem frente a opinião pública que o faz se manter no poder. E sim, como já explicamos anteriormente, o apoio das federações. E o suíço sabe conquistar esse voto de confiança como poucos (tudo muito bem ensinado pelo mestre Havelange). Desde o primeiro dia de seu mandato, por exemplo, declarou abertamente apoio à realização de uma Copa no continente africano, confederação que angaria inúmeros votos, além de ter prometido uma vaga direta para a Oceania. Sabe captar tão bem seus eleitores, que sequer se dá ao trabalho de divulgar suas propostas. Foi o único dos candidatos a não publicar suas intenções para os próximos anos.

Recentemente, repassou a cada uma das federações uma verba de US$ 300 mil, totalizando US$ 62 milhões. Um mimo que pode fazer a diferença para muitas pequenas entidades, e que pode garantir também um voto valioso nestas eleições. Já possui abertamente o apoio da AFC, da CAF, da CONMEBOL e da CONCACAF, entidades que regem o futebol na Ásia, na África, na América do Sul e nas Américas Central e do Norte, respectivamente. A manutenção de seu poder também passa pela divisão da oposição. São muitas vozes contrárias e pouca força em torno de uma unidade. Os três candidatos de oposição possuem programas muito similares. Só uma reviravolta surpreendente parece capaz de dar fim ao reinado de Blatter. O suíço já está em seu quinto mandato.

Blatter foi jogador de futebol amador durante boa parte de sua vida, virou dirigente em 70, no Neuchatel Xamax, clube da Suíça. 5 anos depois entrava na FIFA como Diretor do Programa de Desenvolvimento, para nunca mais sair. Foi secretário-geral (cargo ocupado hoje por Jerome Valcke) por 17 anos durante o mandato de Havelange. "Eu estou em boas condições para continuar servindo ao futebol. Sinto que não terminei a minha missão", Além dos casos de corrupção, o que pesa contra é a perda de grandes patrocinadores. Sony, Emirates, Johnson & Johnson, Castrol e Continental, não renovaram seus contratos com a entidade.

Luis Figo



"Está na hora de retribuir ao mundo do futebol tudo o que me deu"

O preferido da imprensa e possivelmente é o candidato que mais assuste Blatter. Talvez por seu status de ex-melhor jogador do Mundo, ou porque suas propostas parecem realmente boas. O problema não é ele. É o sistema, que impossibilita chegar ao poder sem que você tenha que vender a alma ao diabo. E o "cão" já pediu o pagamento de sua primeira parcela: o aumento no número de vagas na fase final da Copa do Mundo. É uma ação puramente eleitoreira, e que só ajudaria a tirar o brilho de um produto que atingiu a perfeição.

Figo tem boas intenções. O português planeja criar métodos de incentivo para que as associações mantenham projetos de desenvolvimento para crianças, e também para treinadores. Promete a redistribuição de rendas entre os membros associados e defende uma relação mais democrática entre os níveis de poderes da entidade. Além disso, aposta em um tom conciliador, ao sinalizar que em caso de vitória, reaproximaria a FIFA de outras entidades em que o relacionamento tem andado desgastado, como a UEFA e a Associação Europeia de Clubes. Figo também promete discutir situações relativas às regras do jogo, como o uso da tecnologia, e até mesmo em uma alteração da atual regra do impedimento. O português deseja que volte a ser considerador impedido, o jogador que participe ativamente ou não da jogada em questão.

O ex-jogador também sabe se sair bem com as palavras. "Cresci num bairro da classe trabalhadora de Lisboa a jogar futebol na rua, onde a minha vida mudou para sempre através do poder do futebol. Devido à minha educação, prezo o fato de ser dono do meu destino. Não estive envolvido nas políticas da FIFA. Não devo nada a ninguém. Não tenho de retribuir nenhum favor. Como tal, posso exercer o cargo de Presidente da FIFA exclusivamente em prol do futebol e do seu futuro".

Michael Van Praag




"Pelo bem da próxima geração, é inaceitável deixar o organismo que rege o futebol mundial no seu estado atual"

Ferrenho opositor de Blatter, Van Praag é o atual presidente da Federação Holandesa de Futebol, membro do Comitê Executivo da UEFA, e dirigiu o Ajax entre os anos de 1989 e 2003, conquistando a Champions League e o Mundial Interclubes em 1995. Também foi árbitro durante 16 anos e possui muita experiência em diversos outros cargos administrativos no futebol, fato que gosta de exaltar. Afirma precisar cumprir um único mandato para realizar as mudanças que pensa ser necessárias.

Suas principais propostas giram em torno do desenvolvimento do futebol para categorias de base e árbitros, o aumento no repasse de verbas às federações, o aumento na premiação para os participantes da Copa do Mundo, e a redução de custos em campanhas publicitárias, como o filme United Passions, que teria custado aos cofres da FIFA, cerca de R$ 65 milhões, e que arrecadou apenas R$ 400 mil. Um capricho para promover a imagem de Blatter. Destaca também o desejo de democratizar a entidade, e de realizar processos transparentes relativos às finanças.

Porém, assim como Figo, o holandês comete o erro de querer mexer com o que mais dá certo no mandato de Blatter: a Copa do Mundo. O mundial chegou a seu formato perfeito ao atingir o número de 32 equipes, que mantém o regulamento equilibrado, e consegue atender um número ótimo de seleções de nível bom para ótimo. Qualquer aumento neste número é absurdo, e serve apenas para arrecadar votos de federações sedentas por uma vaga no Mundial.

Ali Bin Al Hussein



"Pretendo inverter a pirâmide, com o presidente da FIFA a serviço da modalidade"

Na teoria, a FIFA é uma entidade democrática. Na prática, tem elementos muito similares a uma monarquia. Talvez tenha sido isso que tenha atraído o atual presidente da Federação de Futebol da Jordânia, o Príncipe Ali Bin Al Hussein. É o mais novo membro do comitê executivo da FIFA, com 39 anos, e promoveu com certo sucesso o avanço do futebol de seu país. Seria suficiente para provocar uma mudança na instituição máxima do futebol? Aliado público de Platini, o árabe é fundador da Federação de Futebol do Oeste Asiático.

Em seu programa, apesar de não detalhar como vai fazer, propõe a democratização da entidade, o aumento na transparência, na responsabilização e uma melhor governança, além de também declarar necessária uma redistribuição nos rendimentos da FIFA. Sobre a Copa do Mundo, apesar de propor uma análise do formato adequado da competição, já deixou claro em outras declarações que esta não é uma intenção. 

Al Hussein acredita que manter Blatter no cargo, é um duro golpe para entidade, e possui certeza de que perderá os patrocinadores, assustados com a imagem arranhada da instituição. "Nós deveríamos ter uma situação em que os patrocinadores não apenas estão dispostos a voltar, mas deveríamos ter patrocinadores lutando para patrocinarem a Fifa. Tenho fé nas federações, e acho que há um consenso no mundo inteiro sobre a necessidade de uma mudança. Farei o que puder para alcançar isso. Esta é uma corrida à presidência e serão 209 federações votantes. No passado houve uma cultura de intimidação. O importante é visitar todas as federações, ouvi-las e perceber quais são as suas esperanças e aspirações”.
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Por onde anda Ricardo Teixeira?



Há alguns anos, ao tentar imaginar o futuro sucessor de Blatter na FIFA, um nome que certamente viria a mente era o de Ricardo Teixeira. O ex-genro de Havelange comandava o futebol brasileiro com pulso firme e transformou a CBF em uma das mais lucrativas associações esportivas do planeta. Conhecendo seu modus operandi era imaginável que um dia chegaria lá. Em 2011, já gostaria de ter sido candidato, mas segundo Havelange, em entrevista a Revista Piauí, o ex-sogro o aconselhou: "Faz uma Copa do Mundo de qualidade, trata todo mundo de maravilha, Vão votar em você por agradecimento".

Não deu tempo. Teixeira era muito ligado ao presidente Lula, e também ao então governador de Minas Gerais, Aécio Neves. Entretanto, mantinha uma conflituosa relação com Dilma Rousseff, que sucedeu Lula a frente do Palácio do Planalto em 2010. Por algum motivo, denúncias de corrupção enfim atingiam o mandatário de forma inexplicável. No dia 8 de março de 2012, pediu licença do cargo alegando problemas de saúde. Quatro dias depois, para surpresa de muitos, renunciou da presidência em carta lida por José Maria Marín.

Sumido da mídia, morou nos Estados Unidos até 2014, quando voltou ao Rio de Janeiro, e se tornou presença constante em festas e baladas. Após o vexame do 7 a 1, foi inclusive consultado sobre o retorno de Dunga como técnico da Seleção Brasileira. Em setembro do ano passado, articulou uma manobra que o permitiu receber uma bolada milionária e cortar todos os vínculos com a FIFA, da qual era membro do Comitê Executivo. Tal ação o livra de qualquer processo legal na entidade. Teixeira pode não ser mais o nome no topo da "cadeia alimentar", mas alguém ainda duvida de sua influência?
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Opinião
Leandro Stein é jornalista do site Trivela, e escreveu sobre o pleito a convite do Escrevendo Futebol


A Fifa terá eleições concorridas como nunca antes. Talvez não pelo peso dos candidatos, já que o lobby por mais uma reeleição de Joseph Blatter continua como fortíssimo. Mas pela quantidade de pretendentes que surgem pelo cargo de maior poder no futebol mundial. De realeza a ex-craque, todos querem aproveitar o momento em que o suíço balança em seu trono. Mas até que ponto dá para confiar em uma mudança real?

Pouco, muito pouco. Primeiro, porque Blatter segue como favorito. As denúncias de corrupção e os escândalos nas sedes das próximas Copas mancham sua imagem. Mais fora da Fifa do que dentro. Sua base eleitoral é composta por muitos dos dirigentes que, mesmo indiretamente, estiveram presentes nesses processos. Para que Blatter não leve outros com a maré de sujeira e mantenha os benefícios, melhor manter a situação. Até porque o suíço tem tentado mudar sua imagem, prometendo combate às falcatruas. O que, convenhamos, não dá para acreditar.

Já a concorrência vem justamente com o discurso de renovação. Nos nomes, mas talvez não nos métodos. A maioria absoluta já está envolvida no meio, apesar de alguns manterem a vida pública idônea. Porém, mesmo quem está fora do circo tem suas contestações. Como se levantou sobre Figo, amigo de Jorge Mendes, surgindo como candidato em um momento no qual os agentes sofrem com as novas legislações da Fifa. Existem segundas intenções?

No mais, a não ser que o eleito proponha uma transformação que abale as estruturas da Fifa, fica difícil de acreditar em uma mudança verdadeira. De nada adianta uma cara nova se o corpo está tomado pela doença. E são esses que sustentam o absolutismo de Blatter que terão o direito de eleger seu substituto. Se vier, outro nome a entrar no jogo de poderes.

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O que eles disseram? Confira o que pensam algumas personalidades do planeta-bola:

Pelé
- O Rei do Futebol chegou a declarar apoio a Champagne, antes de seu impedimento a concorrer. Entretanto, Pelé sempre foi um aliado de Blatter, e mostra preferência pelo suíço: "Apoiarei Blatter porque ele tem mais experiência. Claro que você precisa de mudanças na vida. Mesmo assim, acredito que ele ainda tem a oportunidade de fazer uma boa administração. As pessoas devem prestar atenção a uma coisa. Por muitos anos, dois ou três países dominaram o futebol. Agora, há crescimento... Ásia, África. Está mais difícil administrar a Fifa agora, esse é o problema "

Platini
- O presidente da UEFA sempre foi apontado como possível adversário de Blatter. Os dois, inclusive trocaram farpas algumas vezes. Mas o francês preferiu ser um observador deste pleito. "Vamos ver o que acontece. Vamos conhecer os programas dos quatro candidatos. Mas acho que é importante para o futebol que uma mudança ocorra na FIFA.

Maradona - El Pibe não poderia ser mais autêntico: "Blatter é um corrupto. Temos grandes possibilidades de lhe dar um chute no rabo". O argentino, porém, apoia o que possivelmente tem as menores chances. "(Ali Bin Al Hussein) não precisa roubar, tem o seu dinheiro e não tem necessidade de fazer o que faz Blatter, de se achar o todo-poderoso do futebol quando nunca deu um pontapé uma bola".

Cruyff
- "Estou acompanhando do lado de fora, mas se Van Praag pedir meu apoio, eu o darei", disse o maior craque holandês da história, que considera que Figo deveria se juntar a Van Praag. "Eu acho que Luis Figo é um excelente candidato, mas ele precisa de ajuda nesta fase de sua carreira na administração. Por isso, seria bom se Figo agora apoiasse Van Praag. Caso Michael se eleja, então Figo pode andar com ele por quatro anos antes de assumir a batuta".

Roberto Carlos - Companheiro de Figo no Real Madrid, o ex-lateral-esquerdo da Seleção declara aberto apoio ao português: "Temos que voltar às origens do futebol. É preciso pôr a modalidade em primeiro lugar. Luis Figo tem todas as qualidades e a sensibilidade necessária para mudar a Fifa para melhor".

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