Modernização, jornalismo e elitização do futebol brasileiro


Estava lendo um artigo sobre futebol e sociologia, quando um trecho me chamou atenção e me despertou do transe que a leitura me proporciona. “(Proni) Defende a tese de que a modernização pela via do mercado tende a excluir os clubes pequenos do futebol brasileiro, sendo, portanto, uma modernização excludente, que reflete um pouco de processo de desenvolvimento econômico nacional. Nossos dirigentes esportivos compreendem a modernização como a simples transferência de modelos de organização europeus”. Este recorte foi retirado do livro “A metamorfose do futebol”, de Marcelo Weishaupt Proni, que ainda não tive a oportunidade de ler. 
Perceba o quão próximo de nós está essa ideia de exclusão. E é assustador pensar como a mídia tradicional contribui para a exclusão citada, mas é confortante ver como o acesso a produção de conteúdo por todos, permite um contra-ataque. A supervalorização do futebol como produto midiático, relegou aos clubes locais e mais próximos das comunidades em que estão inseridos, a um segundo plano, em preferência a gigantes nacionais e internacionais, que pouco ou quase nada fazem parte das identidades destas regiões. Ao fazerem isso, visando apenas a lucratividade que traz realizar a cobertura de tais clubes e eventos restritos, as empresas de mídia se tornam incapazes de perceber que ao suprimir esta parcela do mercado, elas também prejudicam seu próprio produto. Talvez, não em um curto prazo, o que faz do nosso “apelo”, apenas um esperneio.

Note como é recorrente na boca de jornalistas, mesmo que de maneira inconsciente, um certo deboche ou peso crítico acima do normal quando se trata de equipes de pequeno porte. Transformam as divisões inferiores em mero folclore, fazendo uma espécie de negação da importância esportiva e social daquelas equipes, que gostem ou não, fazem parte da base da pirâmide do futebol brasileiro, mesmo que com estrutura e viabilidade deficitária. 

Seguindo em meus devaneios, comecei a pensar em outros aspectos da transformação que nosso futebol tem passado ao longo da última década. Uma elitização do esporte, que nasceu nas altas camadas da sociedade e cresceu através da popularização, pode, porque não, seguir caminho inverso e regredir. Ressalto, que essa segregação social, atualmente, está presente de maneira abrupta nos principais clubes do país. A polarização de forças, sistematicamente implantada no futebol brasileiro, tende a seguir dois caminhos: ou o exemplo espanhol, em que, apesar da “pobreza emocional” da liga local (que no meu entender, é mais prejudicial do que benéfica), faz com que os clubes sejam fortes frente a outras potências do futebol, ou o exemplo uruguaio, que assim como a economia do país, é centralizada nos grandes centros (no caso do Uruguai, apenas em Montevidéu), e empobrece a periferia do esporte. 

A evidência que acentua essa elitização é o pensamento destacado lá em cima, no trecho de Proni, que afirma que os dirigentes compreendem a modernização como a simples transferência de modelos de organização europeus. Jornalistas mais desatentos, ou meros propagadores de discursos e notas oficiais, possuem a tendência de seguir esta ideia. Poucos são aqueles que pensam que um modelo de gestão profissional também está ligado diretamente ao modelo cultural do país a ser implantado. O Brasil, por ser historicamente uma potência no esporte, e recentemente estar sofrendo um mau momento no cenário mundial (Seleção e clubes), se vê pressionado a agir emergencialmente. E nessa pressa de conseguir resultados, paliativos no ponto de vista de planejamento a longo prazo, faz com que olhamos o futebol europeu como uma fôrma, pronta para aquecer o “bolo” do futebol brasileiro. Não há sequer a intenção de se questionar as vantagens e desvantagens de seguir tais modelos ou determinadas ações praticadas lá.

Para alguns, a solução está na fiel reprodução de modelos consagrados em solo europeu, sem se preocupar com ajustes necessários para a realidade brasileira. Destruir os famigerados Campeonatos Estaduais, por exemplo, parece ser o grande ponto norteador de certos defensores destas mudanças. Estas questões me fizeram ter como meta um estudo mais aprofundado de calendário ideal para o futebol nacional, que em breve será apresentado aqui em outro artigo. Por hoje, acho já viajei demais em meus pensamentos. Segue o jogo.

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