A transição profissional dos jovens no futebol brasileiro


Remexendo em meus arquivos, me deparei com um estudo muito interessante acerca da transição do esporte amador para o profissional em jovens jogadores: “Análise da carreira esportiva de jovens atletas de futebol na transição da fase amadora para a fase profissional: escolaridade, iniciação, contexto sócio-familiar e planejamento da carreira”. Tratados como produto desde muito cedo pelos clubes, os garotos possuem rotina profissional antes mesmo da maioridade. Será que eles estão mesmo preparados? Será que o planejamento da carreira destes futuros jogadores, e suas transições, é feito da maneira correta? E como tratar estes jovens? A pesquisa me parece responder algumas destas questões. O estudo feito por Maurício Pimenta Marques e Dietmar Martin Samulski, entrevistou 186 atletas de clubes pertencentes a primeira divisão do Campeonato Brasileiro em 2007. A média de idade dos atletas era de 18,46 anos.
Segundo estudo, os jovens possuem dificuldade de conciliar a vida esportiva dos estudos. Um dos fatores pra isso, é que muitos clubes treinam, mesmo na base, em dois períodos. Método que já é colocado em dúvida até mesmo para os profissionais, o que dizer então, para jovens atletas? Além disso, 74,2% responderam que conciliar as duas atividades era “Muito Difícil” ou “Relativamente Difícil”. 53,2% dos jogadores entrevistados, estavam defasado em relação à escolaridade. Entretanto, 76,4% estavam ao menos no Ensino Médio. 

Outro aspecto abordado pela pesquisa é a formação inicial do atleta. Basicamente, em que lugar o jovem aprendeu a jogar futebol. A rua ainda é o berço do futebol brasileiro, correspondendo 54,8% dos entrevistados. Porém, as escolinhas de futebol apresentam um número expressivo, sendo citado por 33,9%. Outros locais indicados pelos atletas foram: em casa (9,7%) e no colégio (1,1%). Os autores destacam que essa proliferação de escolinhas faz com que crianças tenham contato com treinamento especializado antes da idade sugerida pela literatura, que é dos 13 aos 15 anos. Imagino, sem embasamento estatístico nenhuma, apenas como suposição, que este número tenha se acentuados nos últimos 8 anos. A média de idade na qual os atletas inseridos nesta amostra iniciaram os treinamentos regulares foi de 8,95 anos.

Mas é interessante destacar um dado. Apesar da dificuldade que a prática esportiva especializada impõem na vida escolar, a média de horas de treinamento entre os 13 e 20 anos dos atletas inseridos na pesquisa, é de 5,5 mil horas, muito abaixo do recomendado por autores da área da Educação Física, que é de 10 mil horas. Vale ressaltar que a qualidade destes treinamentos não entra em questão. 

Prosseguindo, é apresentado que 80,6% treinaram futsal em escolinhas ou equipes. Algo, que na minha visão, contribui para a evolução de aspectos técnicos, e também táticos na hora de ir para o gramado. 68,3% jamais praticaram outros esportes antes de ingressarem no futebol, evidenciando a monocultura do esporte na iniciação desportiva destes jovens. Resultado que não passa de um espelho do restante da sociedade.

O futebol é visto pelos aspirantes a jogadores, e também por suas famílias, como uma chance de futuro com maior qualidade de vida. Isso me parece bastante claro quando a pesquisa aponta as condições socioeconômicas destes atletas. 79,6% das famílias dos entrevistados pertencem à classe média baixa (renda de cinco a 10 salários mínimos) ou classe baixa (renda de meio a dois salários mínimos).

A dedicação ao esporte com o objetivo de alcançar o mais alto nível, sem dúvidas, é cercado de sacrifícios. Quando se ainda é apenas uma criança ou adolescente, essas dificuldades se tornam exacerbadas. Praticamente, uma parte da vida destes adolescentes é arrancada. 75% dos atletas precisaram se mudar de casa para jogar futebol. Destes, a média de idade na qual os jovens saíram de casa foi de 13,56 anos. Consegue imaginar a maturidade necessária para se tornar independente dos pais com apenas 13 anos? O quanto isso interfere no futuro pessoal e profissional deste atleta, acima de tudo, um garoto. E não se restringe apenas à relação familiar, mas a todo o círculo de relações, como amigos, namoradas, professores, etc.

Em relação à confiança que estes jogadores depositam em determinadas pessoas, os pais aparecem como principais conselheiros acerca de assuntos relacionados ao futebol, sendo citados por 56,5% dos entrevistados. 14% responderam que era o empresário. Me parece muito, não? Principalmente se tratando de uma pessoa que vê o atleta como um mero investimento. Assustador mesmo é ver que apenas 7% escolheram o técnico ou algum outro membro da comissão técnica. A principal cabeça pensante na formação de um atleta profissional, não parece importante para os jovens. O que está errado? A receptividade dos atletas ou a abordagem destes profissionais? A pesquisa também indica a falta de planejamento do pós-carreira, e mais uma vez, a confiança excessiva na figura cada vez mais presente do empresário.

Depoimentos de atletas também foram coletados, expressando com ainda mais clareza os resultados apresentados. Para tirar suas próprias conclusões, a pesquisa completa, com outros dados que não expus no texto, podem ser encontrados neste link:


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