Futebol e tatuagem: paixão marcada na pele


O futebol é uma cultura que transcende outras culturas e as absorve, utilizando de suas individualidades para externar a paixão que o esporte-rei costuma despertar em seus adeptos. O esporte tem suas tribos, que seguem tradições deixadas de pai para filho ou mesmo de outras tribos. Assim como a tatuagem, que identifica grupos, pessoas e ideias. A união de futebol e tatuagem cria uma nova classe de torcedores, que fazem questão de marcar na pele o sentimento por um clube. Dessa junção de paixões nascem personagens, histórias e situações únicas, que o especial Futebol e tatuagem: paixão marcada na pele faz questão de apresentar.

Caso de polícia

No início de 2007, um jovem torcedor do Boca Juniors de apenas 17 anos, resolveu registrar na pele sua paixão. Em um tatuador de fundo de quintal, o garoto esperava ansioso para ver o belíssimo escudo xeneize nas costas. Ao chegar em casa, uma surpresa: um pênis (com os dois testículos) havia sido desenhado no lugar do símbolo do Boca. Obviamente a polícia foi acionada, e verificou-se que os dois tatuadores utilizavam equipamentos rústicos, comumente usados em presídios.

De acordo com a família, os dois tatuadores já o conheciam, e além de se oferecerem para fazer a tatuagem, não cobrariam nada do rapaz. Ao mostrar a novidade para a família, foi constatada a brincadeira de mal gosto. Para tentar reverter a situação, foi tatuado no lugar do objeto fálico, a imagem de Virgem Maria.



Quando a segunda pele vira a primeira


Muitos torcedores reforçam a ideia de que o manto do clube pelo qual torce é sua segunda pele. O colombiano Felipe Alvarez resolveu levar isso ao pé da letra e tatuou em seu tronco a camisa do Atlético Nacional. Na frente, o escudo e a imagem da Taça Libertadores, conquistada em 89. Nas costas, o número 2, usado por Andrés Escobar, zagueiro assassinado após a Copa de 94.

A loucura de Alvarez, integrante da torcida organizada Los Del Sur, o transformou em uma espécie de celebridade entre torcedores de todo o mundo. E isso parece não ter feito muito bem ao rapaz. Em 2013, o jornalista Rafael Luis Azevedo, do site Verminosos por Futebol, tentou entrar em contato, mas o torcedor exigiu pagamento em dinheiro para conceder uma simples entrevista. A paixão pelo verde, pelo visto, não se restringe apenas ao uniforme do Atlético Nacional.





Paixão que não tem limites (de idade e de tatuagens)


Delneri Martins Viana, de 69 anos, possui mais tatuagens do que anos de vida. São 98 ao todo, e em 99% delas com alguma referência ao Botafogo. E quem pensa que ele quer parar por aí, está enganado. Delneri vai toda quinta-feira a um estúdio de tatuagem no Rio de Janeiro para fazer uma nova, ou retocar as existentes. Gaúcho de nascimento, se mudou para o Rio quando tinha 23 anos, onde conheceu Malvina Gonçalves Viana, com quem é casado até hoje. Apesar da duradoura relação, a esposa, evangélica fervorosa, não gosta nada dos desenhos.

Em conversa com o Escrevendo Futebol, a filha de Delneri, Glaucia Gonçalves contou como a tatuagem entrou na vida do pai. A idéia de fazer as tatuagens surgiu após ele ter se aposentado no quartel, onde era tenente do Exército. Desde a reserva, há 18 anos, Delneri fez sua primeira tatoo e não parou mais. Glaucia também é companheira do pai na devoção pelo Fogão, e juntos, além de possuírem as tatuagens, estão nas arquibancadas e eventos do Botafogo sempre que possível. "Fazemos tudo por amor", destaca Glaucia, que possui 12 tatuagens, sendo 9 do Botafogo. A mais recente, inclusive, deu a Glaucia a chance de conhecer seu ídolo mais de perto.

Fã de carteirinha do goleiro Jefferson, Glaucia homenageou o goleiro com uma tatuagem com seu nome, e uma estrela com o número 1. Ela já havia o visto pessoalmente outras vezes, mas tais encontros eram sempre apressados pelos seguranças do clube. Até que a história de Glaucia chegou à equipe da Fox Sports, que realizou uma reportagem com os dois, deixando Jefferson surpreso com o conhecimento que Glaucia tinha de sua carreira: "Ele até brincou que eu sabia mais que ele".



Com a cabeça no time do coração

Outra figura conhecida pelas tatuagens extravagantes e o Alberto Francisco de Oliveira Júnior, o Alemão. dono de um bar em frente a Vila Belmiro, Alemão possui 13 tatuagens do Santos. A mais famosa delas é a que simboliza o Paulistão de 2006 e está marcada na testa do comerciante. E tudo começou numa aposta com o então técnico santista, Vanderlei Luxemburgo. Em entrevista ao GloboEsporte.com, Alemão explicou a história. "Em 2006, estávamos disputando o título do campeonato Paulista, e se não ganhássemos iríamos passar o Corinthians em ficar mais tempo sem ganhar o Estadual. Eu apostei com o Luxemburgo: “Se você for campeão paulista, eu vou fazer uma tatuagem onde ninguém tem”. Fomos campeões e eu procurei o lugar para fazer. Tem gente que tem no rosto, atrás da orelha. Eu falei que iria fazer na testa. O Santos foi campeão no domingo e eu fui fazer a tatuagem na quarta-feira."


A primeira de suas tatuagens foi em 1977, quando Alemão ajudou a fundar a Sangue Santista, torcida organizada, hoje extinta. Em dúvida de que desenho tatuar, escolheu o símbolo do Santos. E cada tatuagem simboliza uma conquista, que segundo Alemão, já está defasado. Além disso, a paixão santista contrariou até mesmo o desejo do pai, corintiano fanático, que dizia que era melhor ver um filho preso do que vê-lo torcendo pelo alvinegro praiano.


Quando o jogador assume o papel de torcedor

   O amor à camisa por parte dos jogadores de futebol parece ser algo cada vez mais distante, e reservado a alguns poucos personagens do mundo da bola. Quando se pensa em alguém assim, logo vem a mente jogadores como Rogério Ceni, do São Paulo; Gerrard, do Liverpool e Totti, da Roma. Mas nenhum deles possui uma tatuagem dos ditos clubes de coração. Porém, em Chapecó, cidade do interior catarinense, o atacante Rodrigo Gral ultrapassou um limite que os atletas profissionais certamente possuem receio de passar. O jogador, nascido na cidade e um dos principais jogadores do clube nos acessos para a série B e A do Campeonato Brasileiro, resolveu homenagear o time e a torcida tatuando o escudo do clube no braço. Em entrevista para o Diário Catarinense, explicou melhor a ideia. "Queria fazer algo para marcar esses dois anos no clube, em que saímos da Série C para a Série A. Principalmente pela maneira como foram essas conquistas. Nesse período recebi o carinho do torcedor, formamos um grupo unido. Queria fazer essa homenagem para marcar os 40 anos do clube, comemorados no ano passado, com o acesso à Série A. É também uma homenagem para a torcida. Estou realizando um sonho, o de jogar pelo clube que aprendi a torcer quando era criança."



Futebol no coração e na pele

Um pouco mais ousado é o torcedor do Auto Esporte da Paraíba, Laércio Ismar. O designer, que já rodou mais de 20 mil km em suas viagens para acompanhar o time, possui quatro tatuagens em referência ao Auto. A primeira foi tradicional, um escudo na panturrilha direita. A segunda, é a de maior destaque. Tatuou a frase "Sempre Auto" na nuca, após a conquista da Copa Paraíba de 2011. Na panturrilha esquerda, registrou o nome da torcida organizada, a Ultras 1936. E a mais recente, próxima ao do nome da organizada, o rosto de um gorila, mascote do clube, junto a um escudo. Perguntado se ainda tinha espaço para mais, Laércio não hesitou.


As tatuagens apresentadas anteriormente, para muitos, soa como inexplicável. O que leva alguém a marcar na pele o escudo de um clube de futebol? E o que dizer de tatuar um ídolo? Pelé? Zico? Não. O torcedor é gremista. Renato Gaúcho? Dinho? Jardel? Também não. O ídolo de Darlei Barbosa é o atacante André Lima. Além das inúmeras declarações de amor que o jovem faz no twitter, Darlei também resolveu eternizar esse carinho. A primeira tatuagem foi o nome de André Lima junto ao número 99. Tatuou depois o rosto de André Lima próximo à barriga, e no braço, tatuou a frase "André Lima - Rei Imortal", próximo a uma coroa.


Darlei Barbosa conversou com o Escrevendo Futebol e explicou como nasceu a idolatria pelo atacante. Em 2009, André Lima ainda estava no Botafogo, e o clube alvinegro lutava pra não cair. A garra do jogador chamou a atenção de Darlei, que começou a acompanhar o atacante, até que uma lesão o parou por um tempo. "Na "ausência" do André que nasceu um carinho e uma admiração enorme. Em busca de notícias, fiquei sabendo da história dele, das dificuldades, de tudo o que ele viveu no início, dos problemas que enfrentou na Alemanha, da filha dele que teve sérios problemas de saúde logo que nasceu, e ali eu descobri um cara além do que os outros costumam ver." 


Foi então que o jogador foi jogar no Grêmio, time pelo qual Darlei torce, e segundo ele mesmo, o sentimento que já era grande, ficou gigante. Darlei destaca o respeito e o profissionalismo de André, além de afirmar que com ele em campo, não se pode dizer que o jogo está perdido. Perguntado sobre o que ele pensa das críticas, o garoto é firme. "eu não me preocupo com o que os outros pensam de mim. O que me importa é como o André vê isso, afinal, o carinho é por ele". E o atacante fica feliz pelo carinho demonstrado. "Ele já ligou pra mim e disse para não ligar para o que falavam de mim, porque ele não via como os outros. Ele dá muito valor pra isso, sempre me tratou com muito carinho, mesmo sabendo que ele não precisa de mim pra ter a vida que tem, ou pra ter o reconhecimento que lhe é devido".

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