Como a globalização atrapalhou o futebol do interior


Ah, a globalização! Fenômeno que tanto faz parte da nossa vida, desde aquelas massantes aulas de geografia no ensino fundamental e médio, até os dias de hoje, nos nosso não menos massantes momentos de trabalho. A globalização aproximou pessoas, aproximou culturas. Colocou lado a lado mundos diferentes, e tornou possível a coexistência entre eles. No futebol, a globalização mudou os rumos do esporte. O transformou em produto consumido por milhões de pessoas de todas as idades, crenças, cores e etnias. Transformou o torcedor em consumidor.

Graças a globalização, fronteiras caíram. Negros passaram a jogar na europa, europeus na Ásia, e brasileiros na África, e vice-versa. Clubes de futebol sofreram uma mutação, passando de entidades locais e direcionadas à comunidade, para marcas globais que enlouquecem uma base de fãs estabelecida em todo o planeta.

Mas a globalização também possui seus pontos negativos. Invariavelmente, este fenômeno faz com que empresas de grande porte de uma região distante, predomine o mercado e absorva seus pequenos concorrentes locais. Se pensarmos numa cidade de menos de 10 mil habitantes, com sua economia estabelecida na criação de frangos, uma multinacional granjeira se apropria da mão de obra local, transformando os pequenos produtores em "reféns do enriquecimento alheio". É claro, uma indústria gera muitos empregos e garante a manutenção econômica da região. Mas empobrece a manutenção da cultura local em defesa do objetivo financeiro de um único empresário ou grupo. 

O mesmo acontece com o futebol no Brasil. A globalização avançou e colocou na mente e nos corações de milhares de brasileiros times como Real Madrid, Barcelona, Milan, entre outros. Eles não trazem nenhum benefício a uma sociedade na qual não está inserido. Assim como a polarização das equipes da capital em relação ao seus rivais interioranos. As grandes equipes do Brasil tendem a absorver seus pequenos e já frágeis concorrentes, transformando-os, em longo prazo, em meros sobreviventes do sistema. 

A aceleração no crescimento econômico dos grandes centros, ampliou a diferença entre clubes metropolitanos e equipes do interior. A dificuldade que já existia, pela dependência da movimentação econômica intensa com a chegada ou criação de indústrias nestas cidades, sempre deixou incertezas sobre o futuro das equipes, que comumente acabam quando a indústria resolve deixar a cidade ou deixar de investir no esporte. Essa relação piorou. Com a falta de participação da população, o empresariado local, e mesmo o externo, não vê vantagens em realizar este investimento num micro-sistema econômico. Os clubes passaram a visar somente um possível lucro, mas também, falta ao torcedor a consciência de que num mundo em que o futebol se tornou uma atividade cara, é necessário ser rentável o suficiente para se manter de pé.

Ressalto que o declínio do futebol no interior do país não tem como culpado apenas a globalização. É apenas um fator que contribuiu para o resultado final. Excluí da análise as péssimas (e a falta de) políticas das entidades que regem o futebol no país e nos estados da federação. Porém, creio que o afastamento do torcedor da arquibancada e a destruição total ou parcial de equipes de menor poderio, passa pelo processo da globalização e da "globalização regionalizada". Entretanto, o que mais pesa para este retrocesso, é a falta de uma mentalidade de afeição entre clube e comunidade, principalmente em pequenos centros. E é justamente essa valorização da culturalidade local, algo que a globalização tende a sufocar, que em minha percepção, foi fator determinante para a derrocada. Os clubes precisam viver em prol da comunidade, mas é necessário que esta dependência seja recíproca. Sem o apoio popular, não há futebol.

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