Imagem: Revista Grandes Clubes Brasileiros/Portal Terceiro Tempo
O trabalho de um goleiro é evitar gols. Sofrê-los, porém, também faz parte da rotina desse profissional do mundo da bola. Mas ter orgulho de levar um gol é coisa rara entre os guarda-redes. Imagine, então, que um lance em que o atleta foi vencido pelo chute de um atacante seja o ápice da carreira de um goleiro. Pois esse é o grande feito da vida de Zaluar Torres Rodrigues, o goleiro responsável por ser a primeira vítima dos mais de 1000 gols de Edson Arantes do Nascimento, o Pelé. Sergipano de Propriá, passou por várias equipes, entre elas o Esporte Clube Bahia, antes de se estabelecer em Santo André, região metropolitana de São Paulo.

O fato que o colocou em evidência aconteceu em 7 de setembro de 1956, dia da Independência e a partida entre o Corinthians de Santo André e Santos foi promovida pela prefeitura local por meio da Secretaria de Educação e Cultura como parte das comemorações da data, e foi realizado com portões abertos. O palco do jogo, apitado por Abílio Ramos, foi o Estádio Américo Guazzelli. O time santista venceu aquele jogo por 7 a 1. 

Zaluar nem titular era naquele momento. Apesar de ter fardado a camisa 1 durante um bom tempo e se destacado na posição, era reserva de Antoninho no modesto Corinthians. No intervalo, já com o placar apontando uma goleada de 4 a 0 para o Santos, o rechonchudo arqueiro assumiu a posição para tentar evitar um resultado ainda mais elástico. Durante a segunda etapa, o técnico Lula, do Alvinegro Praiano, também mudou. Saiu Del Vecchio, que já havia marcado duas vezes, e entrou Pelé, um garoto negro e magricelo de apenas 15 anos

Versões de como foi o gol de Pelé são muitas. Algumas dizem que Pelé ficou com a sobra de uma disputa pelo alto vencida por Hélvio, avançou driblando e marcou. Outra versão aponta para uma tabela entre Tite e Raimundinho, que terminou em lançamento para Pelé finalizar. De acordo com o site Paixão Canarinha, Zaluar, em entrevista realizada no ano de 72, descreveu assim o lance: 

Eu tinha condições de defender aquela bola. Quando o Jair lançou o guri, gritei para o Mario (zagueiro) fazer a cobertura. Ele levou um chapéu e num segundo o Pelé estava diante de mim. Poderia ter entrado duro mas não tive coragem ao ver aquelas canelas finas do garoto. Pelé balançou o corpo para a direita e depois para a esquerda e quando eu dei por mim, ele já tinha tocado a bola no meio de minhas pernas!

Ficha Técnica
Corinthians de Santo André 1x7 Santos
Data: 7 de setembro de 1956
Local: Estádio Américo Guazelli (Santo André-SP)
Juiz: Abílio Ramos
Corinthians F. C. de Santo André: Antoninho (Zaluar), Bugre (Mario) e Chicão (Dati); Mendes, Zito e Tonico; Vilmar, Cica e Teleco (Odilio); Rubens e Doré.
Técnico: Jaú.
Santos: Manga, Hélvio e Ivan (Cássio); Ramiro (Fioti), Urubatão e Zito (Feijó); Alfredinho, Alvaro (Raimundinho) e Del Vecchio (Pelé); Jair e Tite.
Técnico: Lula.
Gols: Alfredinho aos 28, Álvaro aos 30, Del Vecchio aos 34 e Alfredinho aos 41 do 1º T, Del Vecchio aos 15, Pelé aos 34, Wilmar (Corinthians) aos 41 e Jair aos 44 do 2º T.


Súmula da partida escrita por Nelson Cerchiari, entrevistado pela ESPN

Mas a tristeza de tomar um gol por debaixo das pernas se tornou alegria alguns anos depois, quando Zaluar percebeu a importância daquele fato do qual foi personagem direto. O fiscal de vendas da Prefeitura de Santo André se preocupava em mostrar a todos quem era, afinal, dessa maneira, estaria para sempre nos livros de história do futebol. Seu cartão profissional apontava: Goleiro 1º gol Pelé (07/09/1956). Enviava cartas para a Revista Placar pedindo para mostrar sua foto, sua história e claro, divulgar seu endereço para quem quisesse se corresponder com ele. Zaluar morava na Av. Dom Pedro II, 1591, conjunto 4. Nas partidas de veteranos do Aramaçan, de Santo André, usava o uniforme abaixo:


Zaluar se sentia tão feliz do "feito", que em 1969 presenteou Pelé com um troféu com a seguinte inscrição:

A Edson Arantes do Nascimento "Pelé" - Este troféu é a homenagem que presto ao maior jogador de futebol do Mundo como lembrança de uma jornada histórica, na qual tive a honra de ser o primeiro goleiro a ser vencido pela sua extraordinária habilidade. 8 de novembro de 1969. Zaluar Torres Rodrigues.

Orgulhoso de seu posto na história do futebol, Zaluar faleceu em 1995, aos 69 anos, de insuficiência cardíaca. Curioso notar que apesar do esforço de Zaluar em ser lembrado, há quase nada registrado sobre sua vida, seja dentro ou fora das quatro linhas. Entretanto, assim como tantos outros nomes, Zaluar sempre será lembrado, e em uma das mais belas e importantes páginas da história do futebol: a vida e obra de Pelé. 

Nossa série com a listagem dos vencedores da Bola de Prata da Placar estava parada desde outubro, mas volta hoje com o ano de 1976. Pelo segundo ano consecutivo, o Internacional levou o título de campeão brasileiro, e naturalmente, pelo forte time que tinha, teve quatro jogadores eleitos na escolha da Revista Placar, entre eles, Elias Figueroa, eleito o melhor jogador da competição.

Manga (goleiro - Internacional)


Perivaldo (lateral-direito - Bahia)


Figueroa (zagueiro - Internacional - BOLA DE OURO)


Beto Fuscão (zagueiro - Grêmio)


Wladimir (lateral-esquerdo - Corinthians)


Toninho Cerezo (volante - Atlético-MG)


Paulo Isidoro (meia-direita - Atlético-MG)


Paulo Cesar Caju (meia-esquerda - Fluminense)


Valdomiro (ponta-direita - Internacional)


Doval (ponta-esquerda - Fluminense)


Lula (ponta-esquerda - Internacional)


Dario (artilheiro - Internacional)



A dica de leitura de hoje é rápida e essencial. Na minha visão, seria obrigatório a todo amante do futebol conhecer um pouco mais da história do maior jogador da história do futebol. E não hesitei em levar pra casa quando vi na prateleira a autobiografia de Pelé. Bem verdade que quem assina o texto são os jornalistas Orlando Duarte e Alex Bellos, mas não tira a importância de ouvir do próprio Pelé como foi sua vida, pessoal e profissional. No livro, o eterno camisa 10 do Santos e da Seleção Brasileira não foge dos temas mais delicados de sua vida, como o não reconhecimento da paternidade de Sandra Regina, comprovadamente sua filha, ou a prisão de Edinho, um de seus filhos. Ainda assim, nestes momento, falta um pouco mais de profundidade, mas é natural que tenha sido assim.

O ponto alto do livro está nos primeiros capítulos. A infância de Pelé, ou melhor, de Édson, chamado carinhosamente de Dico por seus familiares é contada com detalhes, dando-lhe um pouco da dimensão de como o Atleta do Século foi lapidado antes de desbravar todo o planeta por meio do futebol. Enfim, vale a pena ter na estante.


Por Leandro Paulo Bernardo

Não achem que o titulo desse texto é alguma frase em qualquer língua africana, algum golpe de capoeira ou mais uma onomatopeia musical do Carlinhos Brown. Estou me referindo ao jogador paraibano Birungueta e do Kukësi, o seu atual clube na Albânia. O menino João Emanuel Ferreira Souza deu seus primeiros passos na escolinha do "Seu Pedro" e no Paulistano, um clube de futebol amador do simpático bairro da Liberdade em Campina Grande. Recebeu esse apelido em referência ao seu pai que também era conhecido por Birungueta e foi lateral esquerdo do Treze e do Guarany de Sobral nos anos oitenta.

Desde cedo era o xodó das categorias de base do Galo da Borborema, chegou ao clube com treze anos e sempre se destacava ao jogar como meia-atacante. Se profissionalizou em 2011 aos dezoito anos de idade, no mesmo período em que o seu campinho de infância foi vendido para uma grande rede de supermercados, fato que entristeceu todo o futebol amador do interior da Paraíba (tal qual a perda do Viejo Gasômetro para o bairro de Boedo e para o San Lorenzo).


Birungueta pelo juvenil do Paulistano no saudoso Campo da Liberdade.

Em 2012 foi emprestado por seis meses ao Itapipoca para adquirir experiência. Retornou logo ao Treze, porém em dezembro de 2014, após o rebaixamento do Treze para a série D, foi jogar no Linense e em junho de 2015 foi vendido para o Kukësi da Albânia. Talvez fosse esse o “simbolismo subliminar” que havia entre o “garoto da Liberdade” com a cidade símbolo de paz pela ONU e para um povo que fugiu de uma guerra.

O Futboll Klub Kukësi foi fundado em 1930, recebeu o atual nome em 2010 quando passou por fortes reformulações e vários investimentos. Na temporada 2010-2011 venceu a terceira divisão e no ano seguinte foi vice-campeão da segunda divisão. Nas últimas três temporadas na elite ficaram com a segunda colocação, sempre abaixo do também emergente e atual força maior do futebol local o Skënderbeu Korçë. Esteve presente nas duas últimas finais da Copa da Albânia, à qual perdeu respectivamente para o Flamurtari Vlorë e para a equipe do Laçi. Já disputou três edições da Liga Europa em suas fases preliminares, na primeira edição passou por três fases iniciais e foi eliminado no último playoff pelo Trabzonspor, na segunda edição foi eliminado na primeira fase e na ultima participação foi eliminado na terceira fase inicial pelo Legia Warsaw. 

O crescimento repentino obrigou o clube a organizar várias reformas no estádio Zeqir Ymeri (até 2010, estádio Përparimi). Nunca houve restrições nos estádios nas ligas mais baixas do futebol albanês. Em Julho de 2010 começou o trabalho para iniciar a construção do estádio, que foi conjuntamente financiada pela Associação de Futebol da Albânia, o município de Kukës e UEFA, houve um investido de € 576.000 no estádio. A inauguração do estádio foi no dia 30 de novembro de 2010, em um amistoso contra o Partizani Tirana, com vitória do Kukësi por 1-0. Atualmente possui a capacidade para cinco mil torcedores. Zeqir Ymeri foi um ex-jogador do clube. O clube fica localizado na cidade de Kukës, ao nordeste do país, distante 150 km da capital albanesa,Tirana, e a 20km da fronteira com Kosovo (por isso o primeiro nome do clube foi Shoqëria Sportive Kosova). A “cidade original” foi transferida para a construção de uma hidroelétrica. A velha Kukës foi submersa sob um lago artificial em 1976 (processo semelhante ao de Petrolândia em Pernambuco). A nova cidade foi construída na década de 1970 em um planalto nas proximidades e fica à 320 metros acima do nível do mar sendo ainda cercada pelo lago artificial Fierza. Ao seu redor fica a montanha de neve Gjallica, 2468m acima do nível do mar. Possui aproximadamente dezesseis mil habitantes no momento.


A relação com o Kosovo veio antes da Primeira Guerra Mundial quando a resistência albanesa parou uma invasão da Sérvia em 1912. Apesar de ser uma zona de maioria albanesa, Kosovo foi integrada à Sérvia e não ao principado da Albânia, que foi criado naquele ano após declarar sua independência do Império Otomano. Ocorreram rebeliões albanesas para reintegrar o Kosovo entre 1918 e 1924. Entre 1941 e 1944 foi anexada à Albânia, sob ocupação italiana. Após a Segunda Guera, Kosovo foi reintegrado à Iugoslávia, como território autônomo.

Em Março de 1999 eclodiu uma guerra em Kosovo, que lutava por sua independência desde 1991. Durante esse período Kukës ficou marcada no cenário mundial durante o conflito do Kosovo, quando cerca de 450.000 refugiados albaneses do Kosovo cruzaram a fronteira e foram alojados em casas na zona rural e até mesmo nas praças da cidade. A população, temporariamente, aumentou quase trinta vezes, algumas residências registraram até a presença de doze refugiados, sem luxo nas alimentações ou nas instalações. Mas dormiam longe da guerra e protegidos do frio

Em 2000 Kukës foi a primeira cidade no mundo a ser indicada para um prêmio Nobel. Em 2012 a União Europeia concedeu-lhe um prêmio e classificou a cidade como referência ao receber refugiados, principalmente porque a União Europeia possui uma população de 507 milhões de pessoas, mas não consegue receber e acomodar 120 mil refugiados sírios por exemplo. Uma foto marcou esse período na região para o mundo. Agim Shala, um garotinho de dois anos, sendo atravessado por seus familiares, entre a cerca de arames na fronteira com Kosovo, para fugir da guerra. Essa fotografia concedeu a Carol Guzy o prêmio Pulitzer em 2000.


O elenco atual do clube conta com cinco brasileiros; Birungueta, Jean Carioca, Mateus Lima (com passagem pelo Sport), Williams Recife e Erick Flores (sim, aquele revelado pelo Flamengo) e a atual fornecedora do material esportivo também é do Brasil. O clube atualmente está na terceira posição da Superliga Albanesa, que lhe garante uma vaga na primeira fase eliminatória da Liga Europa, e novamente na final da Copa da Albânia. Economicamente o país ainda é um dos mais pobres da Europa, mas no futebol vem evoluindo. Na fase eliminatória da Eurocopa de 2004 a seleção comandada pelo alemão Hans-Peter Briegel ficou invicta jogando em casa, além do fato inédito de não ter ficado em último, algo sempre comum em outras situações. Em 2015, o Skënderbeu Korçë chegou à última fase eliminatória da UEFA Champions League e participou da fase de grupos da Liga Europa. Mas o ápice será em junho desse ano, a Albânia irá jogar a fase final da Eurocopa, ficará no grupo da anfitriã, a França. Sobre todo esse enredo conversei com Birungueta, à qual me cedeu essa ótima entrevista. 

Como está o clima no país para a disputa da Eurocopa?

O país se encontra num clima muito bacana. É a primeira vez que a sua seleção disputa a Eurocopa. Estão bastante otimistas, pois a mesma vem numa crescente positiva, como jamais esteve. 

O campeonato ficou mais animado com o bom momento da seleção albanesa? Dos locais em que jogou, Paraíba, Ceará, São Paulo e Albânia, qual é o mais difícil?

Com certeza, pois todos os atletas nesse momento, almejam destaque para quem sabe, conseguir uma vaga na seleção. Quando joguei na Paraíba e no Ceará achei o futebol dos dois muito semelhante de uma forma geral. Já em São Paulo, o tático e o técnico são bastante exigidos pelo clube. Mas, aqui na Albânia o tático e o físico é muito exigido, também, por esse motivo acho o futebol daqui mais difícil, pois você precisa correr sem perder a concentração, taticamente falando, durante os noventa minutos. 

Como você recebeu a proposta de ir jogar lá? Você conhecia algo desse país? Conte um pouco sobre a estrutura do clube?

A proposta me veio através de um amigo. Não conhecia absolutamente nada sobre a Albânia, já havia ouvido falar, mas nada além do nome, pois um amigo havia feito uma passagem rápida por aqui, mas não me aprofundei nos assuntos daqui antes de vir. O clube conta com uma estrutura que atende bem as necessidades do atleta. Estamos em uma boa evolução, o clube já disputou três fases eliminatórias da Liga Europa. Nesse ano tive a oportunidade de jogar uma competição da UEFA, foi muito legal, jogamos na Bielorrusia, em Montenegro e por fim na Polônia

Qual a maior dificuldade de se morar na Albânia?

As maiores dificuldades que enfrentei aqui foram o idioma, o Albanês, e a saudade da comidinha nordestina (risos).

Tem acompanhado o futebol no Brasil? Como você recebeu a notícia da eliminação do Treze no estadual e o fato do clube ficar parado até janeiro do próximo ano?

Sim. Sempre que posso estou antenado nas redes sociais acompanhando a quantas anda o futebol brasileiro. Fiquei triste, porque é difícil ver um grande clube, com uma grande história, que foi também o que me revelou para os gramados se encontrar nessa situação. 

Quais os seus projetos para a carreira? Chegou a receber alguma proposta para naturalização?

Meu plano de carreira nesse momento é fazer um grande campeonato aqui, como já vem acontecendo, para assim deixar a minha marca na história do Kukësi e me consagrar como campeão. Nenhum brasileiro foi chamado pra se naturalizar (atualmente a liga albanesa tem 20 brasileiros), precisa morar por um certo período no país também, mas se tivesse o convite não pensaria duas vezes. Gosto muito daqui e estou muito feliz. A seleção Brasileira é muito difícil e tem que ter um ajuda muito forte de todas as partes.

Depois de muitos anos do êxodo maciço dos Kosovares, como está a situação na fronteira com Kosovo?

Tudo calmo, Kosovo e Albânia são países unidos, é muito difícil distinguir um do outro, pois os laços culturais e de amizade marcaram a população dos dois países, mais ainda na região em que jogo. Aqui talvez seja um dos poucos lugares da Europa onde não notamos algum racismo, somos muito bem tratados aqui. 

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Encerro esse texto agradecendo ao meu amigo e do Birungueta; Germano Gomes, um grande apaixonado pelo Bairro da Liberdade, que proporcionou esse meu encontro com o jogador e com mais um motivo para comprovar que existem lindas historias além de uma simples partida de futebol.


A cidade de Ardabil, ao norte do Irã, à beira do Mar Cáspio e na divisa com o Azerbaijão, possui uma longa história. É conhecida por ser o local de nascimento do profeta Zaratustra, fundador do zoroatrismo há aproximadamente 3500 anos, uma das primeiras religiões monoteístas da história. O nome da cidade vem do zoroastrismo, e significa algo como local sagrado. Lugar perfeito para o nascimento de um Shahriar (rei). Esse foi o apelido dado para Ali Daei, nascido em Ardabil no dia 21 de março de 1969. Maior jogador da rica história do futebol iraniano, Ali Daei colecionou gols em seus 46 anos de vida.

Por Rafael Buiar

A equipe do site Do Rico ao Pobre convida a comunidade para assistir o documentário: “Fortaleza, a volta de um gigante”, no sábado (14) às 20h, no Cine Guarani. A trama terá exibição única e retrata o ano de 2015 da equipe do Jardim Gabineto, que foi um pontapé para o reinício na história do clube três vezes campeão da Série B da Suburbana no final dos anos 1990.

Por Leandro Paulo Bernardo

Na época do Brasil colonial, a zona da mata alagoana e mata sul de Pernambuco pertenciam a um único território, a capitania de Pernambuco. Era uma região canavieira, com grandes usinas, engenhos, de água e mata atlântica. Os grandes quilombos estavam por lá, inclusive o mais famoso; o Quilombo dos Palmares chefiados por Zumbi. Em termos futebolísticos, as 21 cidades pernambucanas jamais tiveram um representante na primeira divisão estadual.

Como sempre faço quando vou ao centro da cidade, dou aquela passada em sebos e livrarias, mesmo quando estou sem dinheiro, ao menos para saber quais são os títulos disponíveis no momento. Nesse dia, tinha pouco mais de R$ 20 em meu orçamento. Certamente sairia com algo. Já na primeira olhada, encontrei livros que eu já tinha visto na prateleira. Estavam lá me esperando, talvez. Mas todos acima de R$ 30, tornando inviável concretizar o flerte. Até que chego ao fim de uma fileira e uma lombada que eu já tinha visto me chama a atenção. É a biografia de Charles Miller, O Pai do Futebol Brasileiro. E esse é o nome do livro. O autor é John Mills, Por uma bagatela de R$ 15, o levei pra casa. Lançado em 2005, o livro possui 236 páginas facilmente devoradas. Encantador do início ao fim, como há muito não via. 

Após começar a ler, você percebe que tem em mão um livro de história legítimo. Da história do futebol mundial, brasileiro e paulista, da história do Brasil entre o final do século XIX e início do século XX, assim como a história da Inglaterra do mesmo período. Além disso, também passa por biografias de diversos outras figuras de maneira rápida. Ah, e claro, é também a biografia de Charles Miller, que embora alguns contestem, é o legítimo pioneiro e precursor do futebol no Brasil.

Para quem tem interesse, o livro pode ser encontrado no site Estante Virtual, por valores entre R$ 8 e R$ 50 reais. 

Recentemente, jogadores gordinhos ou acima do peso se transformaram em alvos constantes de chatas e modorrentas discussões em mesas redondas e programas de debate esportivo. Mas por sorte, o futebol é para todos, inclusive para atletas de medidas avantajadas. O goleiro Juca Baleia e o atacante Ronaldo, são grandes exemplos disso, sem trocadilhos. Mas o maior exemplo, e aí sim, no sentido literal, foi um personagem lá da época amadora do futebol. William Henry Foulke, conhecido como Fatty, chegou a alcançar cerca de 152 kg, e ainda por cima tinha estimados 1,93 metros de altura. Algumas fontes indicam que ele teria pesado até mais, ultrapassando os 160 kg.

Nascido em 12 de abril de 1874, iniciou sua carreira no futebol em 1894, aos 19 anos, pela equipe do Sheffield United. Se destacou rapidamente pelo seu tamanho mas também pela qualidade como goleiro. Ágil, tinha a vantagem de não perder divididas, em uma época em que a regra permitia o chamado "jogo de corpo" nos goleiros. Destaque da equipe no vice-campeonato nacional de 1896-97, teve uma oportunidade de defender a seleção da Inglaterra, em 29 de março de 1897, em um amistoso contra o País de Gales, vencido pelos ingleses por 4 a 0. Um ano depois, comemorava junto de seus companheiros o título de campeão do Campeonato Inglês.


Na temporada seguinte foi a vez de levantar a taça da FA Cup, então competição mais importante do futebol inglês. Em 1899-00, novo vice-campeonato nacional. Em 1900-01, o Sheffield chegou mais uma vez à final da FA Cup, mas acabou derrotado pelo Tottenham. 



Em 1901-02, o clube chegava a uma nova decisão do torneio eliminatório, mas dessa vez, conquistou o bicampeonato, diante do Southampton. Mas foi preciso dois jogos para superar o adversário. Na primeira partida, após o empate de 1 a 1, Willie, como também era chamado, ficou revoltado, pois para ele, o gol de empate dos Saints havia sido irregular. O goleirão saiu do vestiário sem roupas para perseguir o árbitro, tendo que ser contido por várias pessoas. Como naquela época as sanções ainda não eram bem estabelecidas, Foulke jogou a segunda partida e foi decisivo para o título. Aliás, Foulke possui uma importância gigantesca para a história do Sheffield United. Depois dessa conquista, o time voltou a vencer a FA Cup apenas outras duas vezes, em 1915 e 1925, e não levanta uma taça desde a segunda divisão da temporada 52-53. 

Reza a lenda que o tradicional canto inglês "Who ate all the pies" teria sido cantado pela primeira vez por torcedores do Sheffield em 1984, direcionado ao goleiro. "Não me importo do que me chamam, apenas quero que não me chamem atrasado para o almoço", dizia. Além de bom keeper, Foulke também se destacava no cricket, esporte bastante popular no Reino Unido. Em 1900, fez algumas partidas pela Derbyshire County Cricket Club.


Em 1905 deixou o Sheffield e disputou 35 partidas pelo Chelsea, então na segunda divisão, e como capitão. Mas no fim da temporada, já em 1906, se mudou para o Bradford City, também da segundona. Jogou apenas mais uma temporada e se despediu dos gramados. No total, atuou em 299 partidas pela elite do futebol inglês, e somou 411 jogos em toda a carreira. É o 22º jogador que mais vezes entrou em campo pelo Sheffield United, com 352 jogos. Foulke deixou este mundo em 1º de maio de 1916, aos 42 anos, vítima de cirrose.

Belo bigode, não? Ele pertence a Abe Van Den Ban, um jogador que virou um ícone cult do futebol holandês, principalmente graças ao seu estilo retrô. Não que seu futebol não fosse suficiente, mas além de não ter tido grandes êxitos, sua imagem sempre se sobressaiu ao futebol. Van Den Ban nasceu em 14 de outubro de 1946, em Westzaan. Iniciou sua vida esportiva em outra modalidade, o basquete. Mas acabou se destacando mesmo no futebol. Ainda jovem, entrou no ZFC de Zaandam, equipe que na época era profissional e militava na segunda divisão. Após se destacar na primeira equipe, em 1970, aos 23 anos, foi contratado pelo Az Alkmaar, mas foi pouco aproveitado, jogando poucas partidas. 

Em 72, se mudou para o FC Amsterdam, recém fundado. E logo na segunda temporada, em 73-74, a equipe chegou a um incrível 5º lugar, conquistando o direito de disputar a Copa da Uefa da temporada seguinte. Na competição continental, o time holandês não fez feio. Com Van Den Ban de fora, o Amsterdam goleou o Hibernians na primeira fase fazendo 12 a 0 no agregado e na segunda fase venceu a Internazionale por 2 a 1 em pleno Giuseppe Meazza e segurando o empate sem gols na capital holandesa.


Após deixar os gramados, Van Den Ban se tornou um homem de negócios. E claro, um deles foi abrir uma barbearia

Den Ban retornou na terceira fase e participou das duas boas vitórias diante do Fortuna Dusseldorf, por 3 a 0 em casa, e por 2 a 1 na Alemanha. Nas quartas-de-final, contra o também alemão Colônia, Van Den Ban foi expulso na primeira partida. O Amsterdam perdia por apenas 2 a 1 até a expulsão de Ban, aos 16 minutos do segundo tempo. Com um a menos, acabou sofrendo um hat-trick de Dieter Müller. Na volta, nova derrota, dessa vez por 3 a 2. Van Den Ban permaneceu na equipe até 1976 e somou 82 jogos e 6 gols. O Amsterdam seguiu na primeira divisão até 78 e depois de disputar quatro temporadas na segunda divisão, foi extinto em 82, dez anos após a fundação.

Foi no Amsterdam também que Van Den Ban viveu um dia de fúria. Em 1972, pela extinta Copa Intertoto, diante do eslovaco Nitra, o dono do bigode estava revoltado com a arbitragem. Tamanha revolta o fez tirar o cartão amarelo do bolso do árbitro e lhe aplicar a advertência. Naturalmente, Van Den Ban recebeu de troco o cartão vermelho.


Já experiente, Van Den Ban se mudou para o Harleem, uma das mais antigas equipes do país e que havia acabado de retornar à elite. Depois de três temporadas de desempenho irregular, o clube enfim foi novamente rebaixado, em 79-80. Mas se o Harleem não era forte o bastante para bater de frente com os maiores clubes dos Países Baixos, ao menos tinha força o suficiente para retornar sem sustos. Foi campeão com 54 pontos, oito a mais que o Heerenveen, segundo colocado. Foi o único título da carreira de Van Den Ban. 


De volta à Eredivisie, o Harleem ficou no top 4 em duas das primeiras três temporadas. O clube só voltou a ser rebaixado em 89, e não retornou mais. Em 2010, o clube faliu e se fundiu com o HFC Kennemerland e se transformou no Haarlem Kennemerland, clube amador das mais baixas divisões do futebol holandês. Pelo Harleem, Van Den Ban disputou 152 jogos e marcou dois gols. Na foto abaixo, o jogador, que atuava tanto na zaga quanto no meio campo, divide a cena com ninguém menos que um jovem Ruud Gullit.


Após deixar os gramados, passou por diversas áreas, inclusive abrindo uma barbearia. Em 2012, recebeu uma homenagem de blogueiros e jornalistas holandeses, que se reuniram para uma partida. Ambas as equipes tinham no escudo a imagem de Van Den Ban e seu pomposo bigode, que se tornou referência do futebol alternativo na Holanda. Atualmente, Van Den Ban perdeu os cabelos. Mas ainda ostenta o bigode, sua marca registrada.


Há mais ou menos cinco anos, a Líbia via o regime de Muammar Gaddafi sucumbir. Como era de se esperar, a queda do ditador trouxe os mesmos males dos quais padecem outras nações que, digamos, receberam uma "dose de democracia ocidental". O país vive atualmente uma guerra civil, e está retalhado politicamente, dividido basicamente em quatro grandes facções: o Parlamento Líbio, governo internacionalmente reconhecido, apoiado pelo Exército Nacional, pelo grupo paramilitar Brigadas de Zintan e por países como Estados Unidos e Rússia; o Novo Congresso Geral Nacional, formado pelos derrotados nas eleições de 2014 e ligado a grupos paramilitares como a RSF, do Sudão e milícias étnicas como os Tuaregues; o grupo jihadista Conselho da Shura de Revolucionários de Bengazi; e o mais famosos grupo terrorista da atualidade, o Estado Islâmico.

Fala galera! Resolvi aproveitar o feriado de carnaval para utilizar uma das premissas do Escrevendo Ftebol, que é a experimentação. Sempre usei o blog como um meio para experimentar novos formatos, ideias e outras coisas mais. Fiz uma cobertura mais intensa de alguns acontecimentos, criei uma nova seção chamada Resumão, e passei a utilizar mais o Twitter. Porém, após dois dias, percebi que esse não deve ser o caminho utilizado aqui. O trabalho é pesado para um só, o retorno acaba sendo baixo e o resultado final, em questão de qualidade, não me satisfaz. Em respeito a você que nos curte, segue, ou entra aqui uma vez na vida outra na morte, decidi que vou manter a linha editorial inicial: a de trazer boas histórias, realizar boas reportagens e bons perfis, que era o que já vinha sendo feito, mesmo que em períodos mais espaçados. Dito isso, seguimos em frente. 

Yuri Casari

Hoje pela manhã a terceira e última fase qualificatória da Liga dos Campeões da Ásia foi disputada e definiu os grupos da primeira fase da competição. E o que não faltou nessa fase foi bola na rede.